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Confissões de Adolescentes

A sombrinha

  • Poema

    A sombrinha
    A sombrinha

     

    Tem menina que sonha em ter gato, cachorro. Pra passear com eles na rua, na praça.
    Tem menino que sonha em ter cavalo, bicicleta. Pra apostar corrida, passear pelas estradas, descobrindo o mundo.
    Tem menina e menino que sonham em ter computador, nave espacial e até máquina do tempo para passear em Marte, Saturno, Plutão… e voltar contando como são as coisas por lá.

    O sonho de Gracinha, porém, passeava bem aqui na Terra mesmo, um pouquinho só, acima de sua cabeça.
    …Sonhava com uma sombrinha…
    Uma sombrinha bem colorida, com desenhos de flor: rosa, margarida, lírio, gerânio, flor de maio. Se pudesse, flor de janeiro a dezembro: pra ficar o ano inteiro florida, passeando com a sombrinha pelo jardim de seus sonhos que nunca tinham fim.
    Tanto pediu, tanto esperou pela sombrinha que, no dia do seu aniversário, ela veio. E era igualzinha à que imaginara. Com mais flores ainda. Algumas flores Gracinha nem conhecia.
    Agora era assim: passava o dia inteiro no terreiro da casa, debaixo do sol.
    Serelepe, espevitada, pulava e girava as flores da sombrinha, se confundindo com outras flores menos tontas. Na verdade, Gracinha mais parecia uma abelha em lua-de-mel.
    Mas estava acontecendo um grave problema: o jardim não era na frente da sua casa, e sim, no quintal. Lá no fundo, bem no fundão, no meio de uns pés de jabuticaba enormes, umas goiabeiras gigantescas e umas mangueiras do mesmo jeito:

    - “Monstrengas, monstrolengas, monstromonstras…”, ela dizia, como se um anjinho poliglota, falador de muitas línguas, as estivesse soprando nas suas orelhas.
    Isso porque Gracinha também sonhava em ser professora de Português algum dia… Mesmo não sabendo exatamente o que significavam aquelas palavras que ela falava assim, de ouvido. Ou quem sabe, ser uma escritora, uma poetisa?
    Mas o fato é que Gracinha não podia mostrar sua sombrinha para o mundo inteiro ver, nem fazer inveja nas colegas que passavam pela rua. Por quê?
    Porque, entre outros “porquês”, a mãe não deixava.
    - A rua é muito perigosa, Maria das Graças! Está cheia de monstros-monstrengos-monstrolengos, viu?! – dizia Dona Angelina, sua mãe.
    Depois a mãe explicava que “monstros–monstrengos-monstrolengos” eram monstros-automóveis, monstros-caminhões, monstros-motocicleta e até monstros-ladrões-de-sombrinha.
    Desse modo, nossa heroína teve que se contentar em mostrar a sombrinha apenas para o Lord, o cachorro que guardava a casa… e os passarinhos que bicavam as jabuticabas no quintal.
    Belo dia, enjoada de ficar sozinha no terreiro, inventou outro sonho para realizar com sua sombrinha.
    Para isso, ficou esperando a chuva cair.

    O tempo foi passando. Passou uma semana, duas e a chuva não veio.
    Dois meses se passaram, três… e nada de chuva.
    Gracinha então não esperou mais.
    Entrou no banheiro, abriu o chuveiro e estreou sua sombrinha debaixo d’água.
    No meio daquela chuva particular, sem querer, fez o primeiro poema de sua vida:
    Melhor um pássaro na chuva,
    debaixo do chuveiro,
    que dois pássaros sem chuva,
    no terreiro…

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