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Janeiro/Março 2020
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Saúde

Ninho Vazio: Quando partir é um ato de separação e um ato de amor

  • Os casais em sua trajetória de compromisso na vida têm o desejo de constituir uma família e gerar filhos. Alimentam sonhos, expectativas, passam por vivências e crescimentos e constroem sua história de vida.

    Maria de Lourdes Carvalho de Sousa Silveira
    Maria de Lourdes Carvalho de Sousa Silveira

    Psicóloga Clínica: Infantil, Adolescente, Adulto, 
    3ª Idade, Terapia de Casal e Família. 
    Área de Atuação: Cognitiva-Comportamental e Sistêmica. Mestra em Promoção da Saúde.

    Nos propósitos de uma família além do essencial desenvolvimento de relações afetivas e amorosas é de real importância promover o terreno propício para que cada pessoa amadureça com auto-estima, independência e produtividade.

    Garantir saúde, segurança, relações sociais e ensinar valores fazem parte dos planos e objetivos dos pais para suas crianças e jovens que junto deles aprendem a viver cada estágio do desenvolvimento.
     
     Nas etapas infantis as crianças dependem de seus pais para adquirir proteção, autonomia, iniciativa, identidade pessoal e social.
     
    O tempo passa... E então chega o dia em que eles crescem e se tornam adolescentes e almejam mudanças, há ânsia de viver, buscam o novo e os prazeres. Desafiam a vida, contestam, questionam, têm seus idealismos, querem se posicionar, ter um lugar próprio. Como jovens cultivam o desejo de mudar o mundo, estarem independentes e serem eles mesmos. Acreditam que já sabem viver e que não são mais crianças. 
     
    Os jovens querem partir para outros objetivos: para estudar, morar fora, em outra cidade ou país, escolhem uma profissão ou um caminho diferente, na busca de suas realizações pessoais e profissionais.
     
    A “síndrome do ninho vazio,” acreditam alguns estudiosos ser uma fase de transição, que ocorre com os pais que vêem seu último filho ir embora de casa. Esta é uma fase de mudança para todos, geradora de medos, inseguranças e conflitos. É uma ponte para um novo estágio de vida que pode ser vivida como avassaladora ou libertadora. 
     
    Nesta vivência do ninho vazio, muitos pais experimentam um tormento, criam-se imaginações referentes aos perigos que serão vividos pelos filhos no meio universitário como: trotes, bebidas e drogas, descoberta da sexualidade e amizades. Alguns acreditam que haverá sofrimentos e dificuldades quanto a sobreviver a estas experiências.
     
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    A superproteção é uma das formas de participar de todo este processo, assim como o afastamento dos cuidados necessários ao aprendizado de vida do jovem. Estas extremidades tornam esta vivência mais difícil e geradora de atritos familiares e doenças como a depressão, fobias, e distúrbios de ansiedade entre outros. 

     
    Além disto, algumas circunstâncias agravam e levam os pais a sentirem mais intensamente a saída dos filhos como perda, sofrimento e solidão, são elas: os pais que vivem suas vidas através dos filhos, a mãe ou pai do apego e controle, os que investiram suas vidas em serem “super”, famílias em que os casais estão em desavenças e deixaram a vida conjugal de lado, os adultos que se perderam de seus projetos pessoais e aqueles que têm dificuldades de viver o seu amadurecimento e envelhecimento. 
     
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    A angústia de separação é um sentimento vivido por todas as pessoas em situações de afastamento. As perdas e separações necessárias da vida iniciam-se desde o ato do nascimento, na infância com a ida para a escola, no repartir o filho com outros afetos como os avós, babás e professores. Na adolescência quando preferem os amigos ou namoram e na vida jovem adulta quando se casam. Outra circunstância diz respeito a crises conjugais e financeiras dos filhos que os levam de volta para a casa dos genitores (“síndrome da porta giratória”).

    A “crise da meia idade” vivida pelos adultos e a “crise da adolescência” experienciada pelos jovens também geram áreas de confrontos emocionais. Esta transição não significa o fim dos papéis de pai e mãe, mas sim, o relacionamento de pessoas adultas onde há a renovação e o fortalecimento dos vínculos afetivos. Todas estas instabilidades e crises também podem se transformar em uma época de desenvolvimento, oportunidades e crescimento de todos da família. 
    A separação pode ser também uma transição saudável e libertadora, quando os pais tornam-se parceiros de seus filhos através do diálogo, das escolhas pensadas e definidas entre eles e da compreensão pelos filhos da insegurança e aflições que vivem os pais.
    Os pais com suas experiências e maturidade de vida podem ser colaboradores de seus filhos. Precisam lembrar-se que já viveram junto com seus próprios pais este tempo de buscas e conquistas e tornaram-se adultos.
     
    Os jovens podem colocar em prática todos os valores ensinados pelos pais em seu percurso de desenvolvimento.
    Acredita-se que para a espécie evoluir, os filhos serão melhores do que seus pais foram e que, como filhos devemos repetir o que é bom dos pais e mudar o que não é tão bom, afinal nem pais nem filhos são perfeitos. Vale a pena sempre buscar o melhor de nós mesmos.
     
    A família madura fornece ambiente amoroso, sustentador e desafiador para cada um de seus membros na direção do aprendizado de uma existência independente, da auto-realização, com ajuda mútua em direção à vida adulta. Este sim é um ato de Amor!
     
    por Maria de Lourdes Carvalho S. Silveira

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