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Janeiro/Março 2020
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Saúde

Por que o estado emocional influencia no aparecimento das doenças físicas?

  • A FOCO MAGAZINE convidou o psiquiatra Dr. Jorge Luiz de Mello para responder essa questão da relação mente e corpo, porque o emocional desequilibra tanto o nosso organismo. Confira abaixo o que ele pensa sobre esse assunto.

    Até hoje e após  anos de profissão, fico perplexo quando alguém me pergunta se o lado emocional do ser humano influencia e participa no desenvolvimento das doenças físicas. Parece-me algo tão óbvio e ao mesmo tempo não o é. Esse problema é muito antigo.

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    Começou séculos atrás quando o homem resolveu separar a mente do corpo. O desastre que se instituiu a partir daí é inonimável. O homem começou a pensar a vida e a querer dominá-la através de seu pensamento, ao invés de vivê-la. Não estou aqui deixando de admirar o desenvolvimento da mente, mas estou questionando o poder que a mente ou “cabeça” passou a ter sobre o corpo. Estou falando de um desequilíbrio de uma parte sobre a outra.

    Esse desequilíbrio fez com que o homem perdesse a capacidade de se expressar livremente através de seus sentimentos. Os conflitos entre o que a cabeça pensa e o que  seu corpo pede – sentimento – geram  as disfunções orgânicas que podem originar  uma doença considerada “estritamente” física. Os sinais que recebemos do nosso corpo são inúmeros, basta escutá-los. Vou dar ênfase às dores crônicas: as dores de cabeça,  as dores na coluna cervical, as dores na cintura escapular (ombros), as dores no peito (angústia), as dores na coluna lombar, as dores na cintura pélvica.

    A dor emocional está presente em nosso corpo de forma concreta. São as tensões musculares crônicas. Ao longo do nosso processo de desenvolvimento, desde a concepção e principalmente na primeira infância até a idade adulta, dando ênfase em como fomos criados por nossos pais, o corpo organiza suas defesas dando origem ao que chamamos de couraça muscular ou tensões musculares crônicas. A nossa história de vida está escrita em nosso corpo através das couraças musculares. É muito simples perceber que algo não vai bem com a vida do nosso corpo.  Então, podemos dizer que em um grupo muscular, onde há uma tensão muscular crônica, “mora” um conflito emocional. Por exemplo, existe uma boa dose de masoquismo em quem tem muita tensão na musculatura entre as escápulas. O encurtamento dessa musculatura por excesso de tensão, acaba se refletindo na livre expressão de seus sentimentos através de seu corpo. A origem desse conflito emocional está na história de vida desse indivíduo. Ele carrega o mundo em suas costas. Por que  tem que ser assim?  Um modo de viver que o torna infeliz. Mas por que ele não consegue se livrar desse peso sozinho? É porque os conflitos emocionais que se manifestam em forma de tensão nesse grupo muscular, tornaram-se inconscientes.

    Existem várias histórias de indivíduos que carregam sua família original em suas costas abrindo mão de sua própria vida. Outra forma de perceber claramente isto, é o da tensão que se forma na musculatura que envolve a garganta. Muitos indivíduos se queixam da sensação estranha como se uma “bola” subisse e descesse no peito causando grande mal estar. A explicação para isso vem do fato que as tensões musculares crônicas da garganta impedem a livre passagem de seus sentimentos. Quantos indivíduos não conseguem chorar sua tristeza? A melhor forma de alívio para a tristeza é o choro. Por que esse indivíduo não consegue chorar? Os motivos pelos quais  não consegue mais chorar espontaneamente estão em sua história de vida e se tornaram inconscientes.

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    Lembro-me de um paciente que quando criança apanhava muito de seus pais de forma injusta. Um dia, resolveu enfrentar essa situação dizendo a si mesmo que enquanto tivesse apanhando, não choraria mais. Pronto, está instalado um conflito emocional.  Chorar de tristeza faz parte da vida, assim como rir de alegria. É muito bom ver um paciente sorrindo depois que ele chorou. A tristeza chorada dá espaço para a alegria em nosso corpo. Quantos pacientes me falam que são um poço de tristeza.

    Não existe problema algum com o fato de estarem tristes, já que a tristeza é um sentimento que faz parte da vida, assim como a alegria. O problema está no bloqueio emocional que impede a livre expressão da tristeza através do choro. Esse bloqueio está em nosso corpo através de tensões excessivas na musculatura que revestem a garganta. Outra limitação que o corpo pode carregar é a dificuldade em lidar com a excitação da alegria.

    Lembro-me de uma paciente que me contava que era muito feliz em sua infância. Vivia cantando e pulando de alegria. Sua mãe dizia para ela não se excitar tanto com a vida porque,  provavelmente, essa alegria seria seguida de muita tristeza. Então, para não se sentir mais triste, essa paciente deixou de viver as suas alegrias. Passou a inibir sua excitação de alegria em seu corpo tornando-o excessivamente rígido. A musculatura que revestia seu corpo era dura como pedra. Para não sentir-se triste abriu mão de sua própria vida. Nem tristeza e nem alegria. Seu corpo se tornou duro e sem expressão e os motivos são esses conflitos inconscientes. Outro grupo muscular que pode carregar muita tensão é o diafragma. Sabemos que o diafragma faz parte do processo que envolve a respiração. Muitas pessoas se queixam de não respirarem bem. Tensão excessiva nesse músculo empobrece o ato respiratório. O volume de ar e oxigênio que os pulmões poderiam captar ficam reduzidos. Sendo assim, o  corpo passa a trabalhar com um nível reduzido de energia. Respirar menos é uma defesa para não sentir a dor da ferida emocional. Para sentir, o corpo precisa de energia. Todos nós carregamos aquilo que chamamos de ferida emocional. A ferida emocional que carregamos vem da história de nossa criança ferida. Como o inconsciente é atemporal, isto é, o tempo não faz com que as pessoas superem seus traumas emocionais, apesar de adultos, carregamos dentro de nós e em nosso corpo uma criança ferida. Tensionar o corpo, respirar menos para evitar o contato com a dor e o sofrimento, viver menos, sentindo menos para evitar a dor.

    Jorge Luiz de Mello é Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta Corporal.
    Jorge Luiz de Mello é Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta Corporal.

    Pagamos com a própria vida para não sofrermos. Viver menos, com menos intensidade é o caminho da doença emocional em direção à doença aparentemente somática, qualquer doença que leve mais cedo ou mais tarde um indivíduo à morte. Se vocês me perguntassem, e aí, tem saída para esse negócio? Diria que sim. Mas temos que ter coragem para pedir ajuda.

    Uma das formas de sairmos dessa situação é levarmos o indivíduo ao enfrentamento daquilo que o faz sofrer e que o leva, incondicionalmente, para a doença. A análise bioenergética é uma forma de tratamento que ajuda o indivíduo a superar seu sofrimento. Quando perguntaram para Alexander Lowen, o pai da análise bioenergética qual o principal objetivo de seu trabalho, aos seus 80 anos e com muita experiência, ele disse: eu reensino os meus pacientes a respirar. Quando o psicoterapeuta refaz, junto ao paciente, o caminho do trauma tornando-o consciente, apresenta-lhe novas formas de expressão de seus sentimentos reprimidos. O paciente, enquanto um ser humano adulto, deixa de ser vítima de sua história. Quanto mais próximo estiver de sua criança ferida, mais saudável será sua vida. Costumo dizer aos meus pacientes, seja uma mãe boa para si mesmo.

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