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Janeiro/Março 2020
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Saúde

MULHER Um tempo pra cuidar de si

  • A vida agitada dos últimos tempos tem afetado homens e mulheres, de forma geral. Entretanto, as mulheres acabam carregando boa parte do peso já que, além de trabalhar fora, arcam também com o trabalho doméstico.

    A psicóloga Niany Mayra Farjalla: “Perdemos a identidade no meio desta luta para sobreviver. E o viver vai
    A psicóloga Niany Mayra Farjalla: “Perdemos a identidade no meio desta luta para sobreviver. E o viver vai ficando um pouco de lado.

    A mulher da dupla jornada deu lugar à mulher multifuncional, que trabalha fora, trabalha em casa, cuida dos filhos e do marido, es-tuda e ainda assume outras incumbências, como participar de reuniões de escola, levar filhos ao médico e até mesmo a uma festinha infantil.

    Mas, não é apenas o excesso de obrigações que mais pesa para elas. É a preocupação em não estar fazendo tudo isso a contento; é ter de sair de casa para trabalhar e se sentir culpada por deixar os filhos com a babá novata ou na creche; é achar que, mesmo assim, não pode sequer ter o direito de questionar essa situação.

    Para a psicóloga, Niany Mayra Farjalla, a mulher acaba perdendo sua identidade no meio de um cipoal de obrigações. “Perdemos a identidade no meio desta luta para sobreviver. E o viver vai ficando um pouco de lado”, diz ela, que hoje atua como psicóloga do trabalho na Santa Casa de Misericórdia de Passos. “O setor em que estou trabalhando atualmente só me confi rmou algumas coisas, que eu vinha sentindo: que a mulher ou está cuidando dos filhos, ou cuidando do marido, ou cuidando do seu trabalho externo, ou do trabalho caseiro ou estudando. E qual é o tempo que ela dedica para si?”, questiona.

    Niany diz que as tarefas cotidianas sugam boa parte do tempo da mu-lher, não sobrando nada para que ela cuide de si. “Às vezes, ela pensa em pegar um cinema, mas está tão cansada que acaba não indo; não come uma comida da qual tanto gostava, porque tem que fazer aquela que é do gosto dos filhos ou do marido. Suas vontades, necessidades aca-bam ficando em segundo ou terceiro planos”, observa.

    Sentimento comum

    A psicóloga observa que boa parte das mu-lheres que a procuram, diariamente, tem um sentimento comum: o de que não estão viven-do para si, mas para os outros. “A verdade é que a mulher acumulou tarefas. Além do papel de mães e de donas de casa, muitas têm mais de um emprego para ajudar no orçamento de casa; muitas são arrimo de família”, diz Niany.

    Nos últimos anos, vem crescendo o discurso de uma maior participação dos homens nas tarefas de casa. Entretanto, segundo Niany, isso ainda não é tão visível. “O peso continua sendo maior para a mulher”, frisa. Para a psicóloga, a participação do homem na divisão das tarefas pode ser maior, hoje, mas em com-paração com os homens das décadas de 1970 e 1980, por exemplo.

    “Essa divisão de tarefas é muito subjetiva. Às vezes, para um homem, arrumar a cozinha num dia já representa muito; para ele, pode ser um grande feito ficar com a criança uma noite, mas e as outras 364 noites que ficam a cargo da mulher?”, questiona. E complementa: “Na maioria das vezes, tarefas como ir à reunião da escola dos filhos, sobra para a mulher. E o pior é que aquilo que é feito costumeiramente por elas muitas vezes não é reconhecido pelos homens.”


    Se muitos homens arrumam tempo para seu futebol ou sua cervejinha com os amigos, o mesmo não pode se dizer de boa parte das mulheres. “É claro que há homens que também vivem sufocados pela falta de tempo, mas isso é mais comum entre as mulheres, que acumularam muitas tarefas nos últimos tempos”, observa Niany Farjalla.“Cadê meu tempo?” 

    Segundo ela, a maioria das mulheres trabalha muito de segunda a sexta-feira; dedica o sábado para organizar a casa – porque o tempo, durante a semana, é escasso; e destina o domingo para fazer visitas a amigos e parentes, por exemplo. Assim, entra semana, sai semana e as mulheres não escapam da rotina estafante. “Já ouvi relato de mulheres que tinham como hobby tocar piano, fazer jardinagem ou mesmo praticar algum esporte, coisa que não fazem há muito tempo“, informa Niany.

    A psicóloga diz que não é possível estabelecer quem se estressa mais: o homem ou a mulher. “Não há estudo que confi rme isso com certeza absoluta, mas podemos dizer que há situações que causam grande estresse nas mulheres, o que não ocorre com os homens”, observa.

    Como exemplo, ela cita o fato de uma mulher se sentir culpada por trabalhar fora, deixando os fi lhos com uma babá. “O homem geralmente não vê esta situação como estressante ou angustiante, mas a mulher chega a fi car apavorada”, observa e completa: “Imagine uma mãe que deixa o fi lho com uma babá novata ou mesmo numa creche. Ela imagina mil e uma coisas que poderiam estar fazendo com seu fi lho. E isso a afeta bastante no seu cotidiano.”

    Investindo em qualidade

    Atualmente, algumas empresas estão investindo no atendimento psicológico de seus funcionários. Se boa parte o faz para não perder em produtividade, outra parte tem por objetivo humanizar o relacionamento com o seu público interno. Há casos de funcionários que têm de faltar ao trabalho para resolver o problema de um fi lho, que é usuário de droga, por exemplo, ou um confl ito em família. Situações como o divórcio, por exemplo, geram uma forte carga emocional nas pessoas envolvidas.

    “E isso afeta, muitas vezes, o trabalho da pessoa. Enfi m, cada um é um ser único e não há como separar o pessoal do familiar ou do profi ssional”, salienta Niany. Ao oferecer apoio a seus funcionários, as empresas contribuem para que aquelas pessoas tenham condições de resolver bem seus problemas sem prejudicar o andamento do seu trabalho. “A pessoa se sente mais acolhida, mais segura quando tem o apoio da empresa na qual trabalha”, frisa.

    A busca de caminhos

    Embora evite falar em conselhos, Niany diz que é possível buscar caminhos que ajudam as pessoas – sobretudo a mulher – a terem um tempo só para si, evitando assim o surgimento de doenças mentais, como a depressão e a ansiedade, por exemplo. “A primeira coisa que devem fazer é um diagnóstico. Quanto mais cedo o diagnóstico, melhor será o prognóstico”, diz a psicóloga, que alerta que a depressão e a ansiedade são tidas, hoje, como as doenças do século 21. “Já se sabe hoje que uma em cada três pessoas, em todo o mundo, vai ter de usar medicamentos para enfrentar essas doenças”, informa.

    Conforme a psicóloga, “é comum as mulheres terem vergonha de querer um tempo para si por temer serem tachadas de egoístas, por exemplo. Mas elas não precisam ter vergonha. Essa é a busca saudável e natural ”, observa a psicóloga.

    Por isso, diz ela, é importante que a mulher dedique um tempo para fazer o que gostava de fazer e não tem conseguido devido à escassez de tempo. “Temos de resgatar a nossa identidade, a nossa individualidade. Afi nal, olhar o ser humano de uma forma holística é enxergá-lo como um todo, não se esquecendo de nenhuma parte.”

    “É sempre muito importante nos lembrarmos de que, bem antes de sermos esposas, mães e profi ssionais somos simplesmente seres humanos”, conclui Niany Farjalla.

    José dos Reis Santos

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