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Saúde

Cuidado com o Caramujo Africano!

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    De Norte a Sul do País, uma nova praga vem dando dor de cabeça aos brasileiros nesse verão: o caramujo gigante africano (Achatina fulica). Com apenas 10 centímetros de diâmetro e pesando até 200 g, o molusco pode provocar doenças em humanos e animais domésticos e arrasar jardins e plantações. Entre dezembro e janeiro de 2013, em Passos, foram notifi cados 51 casos. O caramujo africano se prolifera rapidamente, portanto, há que se ter alguns cuidados quando se deparar com algum deles.

    Segundo a professora de Zoologia de Invertebrados do Curso de Ciências Biológicas, em Passos, Nelci de Lima Stripari, o caramujo africano encontra-se disseminado em 24 estados brasileiros, sem registro apenas no Acre e no Amapá.

    “Pelo menos três introduções do caramujo africano parecem ter ocorrido no Brasil. Duas introduções foram voluntárias com o objetivo de criação e comercialização dos caramujos na década de 80 no Paraná e em 1996-1998, em Santos (SP). Enquanto a terceira, com informações menos precisas, parece ter ocorrido em 1975, em Minas Gerais”, explica a bióloga.

    Preocupante é que esse molusco pode provocar doenças em humanos e animais, como bem afirma Nelci. “Existem duas zoonoses que podem ser transmitidas pelo caramujo africano. Uma delas é chamada de meningite eosinofílica, causada por um verme (Angiostrongylus cantonensis), que passa pelo sistema nervoso central, antes de se alojar nos pulmões. A segunda zoonose é a angiostrongilíase abdominal (causada pelo parasito Angiostrongylus costaricensis). Muitas vezes é assintomática, mas em alguns casos pode levar ao óbito por perfuração intestinal e peritonite”, diz Nelci acrescentando.

    A professora de Zoologia de Invertebrados, Nelci de Lima Stripari.
    A professora de Zoologia de Invertebrados, Nelci de Lima Stripari.

    “Estudos recentes realizados no Brasil demonstraram que a A. fulica apresenta baixa susceptibilidade à infecção por A. costaricensis e A. cantonensis. Porém, é importante ressaltar que, além da possível transmissão da angistrongilíase, deve se levar em consideração o fato de que o caramujo invasor pode ser vetor de outros parasitas que podem colocar em risco a saúde humana e de outros animais, como nematódeos que causam pneumonia em gatos”, fala a professora. 

    Habitat

    Os caramujos africanos sobrevivem tanto em meios naturais como em florestas, brejos, outras áreas de vegetação nativa, além de hortas e pomares, sendo também encontrados em plantações abandonadas, terrenos baldios urbanos, quintais, jardins e sobre material em decomposição e próximo a depósitos de lixo. “A A. fulica é considerada ‘praga’ na agricultura. Pode se alimentar de cerca de 500 espécies de vegetais, já observei se alimentando até de comigo-ninguém-pode (planta tóxica e ornamental)”, revela a professora.

    Em Passos foram notifi cados entre dezembro e janeiro deste ano, 51 casos. Conforme o Diretor da Saúde Coletiva da Prefeitura Municipal, Michael Silveira Reis, há reclamações de caramujo africano praticamente em todos os bairros da cidade, no entanto, em alguns como o Penha, Bela Vista e Polivalente, a incidência tem sido maior.

    “Atualmente capturamos muitos caramujos na rua Salinas, Avenida Júpiter, rua Poços de Caldas, rua Bahia, rua Pará, Avenida Amazonas, rua Guanabara e rua Venezuela. Mas os moluscos são encontrados em vários outros bairros do município também. Nunca fomos acionados para capturar na zona rural de Passos, mas sabemos que nestes locais são considerados micro-habitats dos caramujos africanos”, revela Michael.

     

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    Formas de contaminação e cuidados

    O diretor da Saúde Coletiva afi rma que quando o cidadão liga para o departamento, geralmente está preocupado com a proliferação do molusco, que é muito rápida e acelerada. “Eles são hermafroditas, e ainda não há necessidade de acasalamento. Espanta é o número de ovos que eles lançam por ano, por isso assusta bastante a população”, comenta Michael.

    O diretor da Saúde Coletiva da Prefeitura Municipal, Michael Silveira Reis.
    O diretor da Saúde Coletiva da Prefeitura Municipal, Michael Silveira Reis.

    Tanto Michael como a professora bióloga orientam jamais manusear o molusco sem luvas ou outra proteção. “Há alguns procedimentos como: catação manual do caramujo e seus ovos com luvas descartáveis ou sacos plásticos depois esmagá-los, cobrir com cal virgem e enterrá-los (Esse tipo de controle é o mais adequado). A outra opção é incinerá-los desde que o procedimento seja realizado com segurança”, explica Nelci, ainda dizendo:

    “Isto para controle dos ‘indivíduos’, mas é importante não deixar os lotes baldios com mato alto, com restos de construções, ter o cuidado de não levar ‘indivíduos’ e ovos para áreas não infestadas.” 

    A direção da Saúde Coletiva da Prefeitura atenta para outro item importante após incinerar o caramujo. “Só incinerar não basta. Muitas pessoas acham que depois de atear fogo acabou. As cascas do molusco devem ser jogadas no lixo, bem esmagadas, pois se estiverem expostas no quintal, por exemplo, e chover, elas servirão de criadouro para o mosquito da Dengue; outro problema que enfrentamos no município!”, afi rma o diretor.

    Graciela Nasr

    Fique mais por dentro do caramujo africano

    Os caramujos da espécie Achatina fulica são popularmente conhecidos como “falso escargot” ou caramujo gigante africano. As espécies exóticas ou invasivas são aquelas que ocorrem fora de sua área de distribuição, normalmente introduzidas pelo homem de maneira intencional ou acidental, mas que causam problemas para os ecossistemas e para as outras espécies onde são introduzidas.

    “Exemplo disso ocorre com o caramujo africano Achatina fulica introduzido no Brasil na década de 80 por criadores interessados em substituir o escargot Helix aspera, para consumo humano. O fato é que hoje esse molusco africano está praticamente em todos os biomas brasileiros”, esclarece Nelci Stripari, professora do curso de Ciências Biológicas.

    O sucesso da espécie relacionado com seu hábito generalista, alta resistência a variados ambientes e o elevado potencial reprodutivo favoreceu a proliferação e disseminação.

    “A elevada população do molusco africano tem despertado a atenção dos cientistas, da sociedade e das autoridades que vêem na espécie exótica um potencial competidor dos moluscos nativos, praga na agricultura e um possível hospedeiro intermediário de um nematódeo que pode causar meningoencefalite eosinofílica e angiostrongilíase abdominal no homem. A dispersão passiva, intencional ou acidental, é o principal meio de disseminação do caramujo”, conclui a bióloga.

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