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Janeiro/Março 2020
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Literatura e Cultura

Vontades de ficar bom

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    Fim de ano, início de ano. 

    Época de dar um balanço geral nas ruindades cometidas. Época de pegar vassoura, aspirador de pó, esfregão, detergente, água sanitária, sabão. E tentar passar a velha alma a limpo. Espanar a poeira das promessas não cumpridas. Deixar o coração brilhando de novo, reluzindo. Tinindo que nem um espelho que nunca foi usado.

    Por essa época – entra ano, sai ano – também dá uma vontade danada de ficar bom.

    Dá vontade de trocar a resistência do chuveiro elétrico e só tomar banho no morno, conforme ela gosta. Dá vontade de não mais apertar o dentifrício no meio. Não deixar fio de cabelo se acumular no ralo do boxe. Nem restos de barba grudados no lavatório. Nem respingos de sabonete no espelho. Nem mijar na tampa do vaso. Nem deixar meias e cuecas espalhadas pelo banheiro. Nem confundir toalhas ou escovas de dente. Nem imitar o “pato no cio debaixo d’água”, conforme ela não gosta.

    Dá vontade de limpar gavetas e prateleiras. Arrumar novamente os livros na estante. Dá vontade de passar pano no chão e parar de fumar. Jogar o lixo fora, com os cinzeiros. E o derradeiro toco de cigarro dentro. Dá vontade de filtrar a vida, enfim, e ir acabando com as velhas manias perversas. Como essa de acumular badulaques, penduricalhos, caraminguás. E todos aqueles suplementos culturais que você guarda para ler depois e não lê.

    Mas também dá vontade de pegar no pesado: consertar as torneiras que estão vazando. Trocar as roscas espanadas dos puxadores do armário. Substituir lâmpadas queimadas. E VONTADES DE FICAR BOM até passar óleo doméstico nas juntas das dobradiças que estão rangendo, como um velho barco à deriva.

    Dá vontade de arrumar a cama. E estender os lençóis daquele jeitinho que ela gosta. Desenhado, com um triângulo-retângulo ao lado do travesseiro dela e duas dobrinhas nos pés. Dá vontade até de dormir com a TV desligada. Para acordar com o coração à larga, a alma de bujarronas pandas, as velas soltas. Esquecido das picuinhas em que o maremoto cotidiário nos faz naufragar.

    Assim, de proa levantada, em mar aberto, às seis da manhã você acorda pimpão. Bem disposto, assobia um trechinho de ópera. E depois toma banho cantando um pagode: em homenagem ao vizinho de baixo (ou de cima, tanto faz).

    Então, você fica pensando: como é bom ter vizinho que te rouba o jornal todos os dias, na garagem, antes de descer para esquentar o carro. E num arroubo de generosidade você acha até que esse vizinho, o seu “ladrão de notícias”, está sendo camarada. Pensando bem, jornal só traz notícia ruim. E alguém está é te poupando de dissabores. “Deve ser um cara legal, desses solidários, que dividem as tragédias com todo mundo”, você pensa.

    E enquanto São Solidário Ladrão de Notícias leva seu jornal (e também a revista semanal), você faz o café da manhã pra ela, que ainda dorme, coitada, feito um anjinho barroco.

    Nesse instante, enquanto você espreme as laranjas e passa o mel nas torradas (de um lado e do outro, como ela gosta), promete a si mesmo que vai ler as revistas Caras, Quem, Contigo, Carinho, Capricho, Cláudia, Bárbara, Criativa, Casa & Jardim, Chiques & Famosos. E o que mais de amenidade aparecer pela frente. Só pra poder discutir com ela, no fim de semana, seus atuais assuntos preferidos: almas gêmeas, anjinhos, duendes e diabinhos. E de gruja, nos próximos dias, poder tergiversar também sobre decoração, inteligência emocional, caminhos para o sucesso. E recitar frases de autoajuda, minutos de sabedoria e as 177 maneiras de fazer uma mulher feliz... Paremos por aqui, porque ela está acordando:

    – Bom dia, bom dia, bom dia! – você repete com a bandeja entre as mãos e uma flor no meio. Ela boceja, vira para um lado e dorme de novo, grugrulhando:

    – Deixa eu dormir mais 15 centímetros, Pavão...

    Pavão? Com assim? Meu Deus, ela nunca me chamou de Pavão! E que história é essa de “dormir mais 15 centímetros?” Então, entre surpreso, parvo e desconsolado, você quase desconfia. Um amante na repartição? Na malhação? Ou no salão?

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    – Ora essa! Ano novo, vida nova, cara! E não vai ser agora que você vai deixar um ciuminho besta te atrapalhar a vida, vai? – e se consola – Ela quis dizer “l5 minutos”, coitada. E Pavão deve ser meu novo apelido para o Ano Novo. Ela não vive te botando apelido novo, cara? Petequinho, Pixué, Xoxó, Carocinho, Pirulito, Gutigute... 

    Chama o elevador. Lotado. “Bom dia, bom dia pra todos!”. Todos te respondem com um bocejo levantino, desorientados. Desce pelas escadas. Cada degrau uma penitência de pensamento positivo: “isso deve ser bom pra abaixar meu colesterol ruim, ora essa!”. E chega (já suado, quase a nocaute) na caixa de fósforos a que deram o nome de garagem. Então você liga o motor da velha furreca a álcool, 100% álcool: porque um dia também já foi bom com o governo e acreditou que o álcool ia dar totalmente certo, conforme se prometeu. A fumaça invade tudo. Mas você é bom, muito bom. “Um novo ano tá começando... relaxa, fica flex”, diz pra si mesmo. E consegue sair do labirinto sem abalroar ninguém: nem mesmo na sua velha já conhecida pilastra chapiscada (pela milésima vez) com a tinta do seu próprio carro.

    Ganha a rua. Ufs, que bom! Assobia o Eu sei que vou te amar e imagina a cidade inteira de férias, na praia, num quase janeiro de trânsito celestial. Sem querer, um gaiato te fecha. Enquanto outro, por trás, buzina e xinga sua mãe. Mas você tem vontade de ficar bom. Desce do carro e dá-lhe um caloroso abraço, entre tapinhas. E a pergunta é inevitável: “O senhor é candidato a quê, de quê, de qual partido?”

    Tudo bem. Você chega no escritório sorrindo. E contando pra todo mundo a nova piada que decorou. Para o ano começar bem entre os colegas. A secretária traz as contas: IPTU, IPVA, escola das crianças, lista de material, seguro de morte, plano de doença. E todas essas coisas que você tem que pagar para que o governo possa te matar devagar, bem devagarinho, como diz o samba. Aí o telefone toca:

    – Alô, doutor? Aqui quem fala é o Pavão, o massagista. Fala pra patroa que hoje a gente vai esticar a tiribamba até meia-noite. Mas o cheque que ela me deu é borracha, falô! Seguro ele até amanhã, patrão. Depois disso, solto o passarinho!

    Aí você, finalmente, cai na real. E solta o primeiro palavrão do ano, desses que fazem tremer até o jipinho que anda buscando sinais de vida em Marte:

    – Pavão é a...! – E os marcianos à sua volta, em coro, aliviados:

    – Graças a Deus! O homem voltou ao normal!

    por Antônio Barreto

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