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Janeiro/Março 2020
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Literatura e Cultura

Cigarras Sirigaitas

  • Estão saindo da cidade, indo pra roça. Pai dirigindo o carro por uma estrada de terra, sorrindo, se lembrando de sua infância. E um poema antigo que dizia: “Cigarras sirigaitas cantando...”. Assobia.

    Mãe ao lado, ouvindo música sertaneja no rádio, se lembrando da mesma coisa. E um poema que dizia: “Solfejavam no campo/ as sirigaitas cigarras/ quando...”

    Os meninos atrás. A irmã mais velha (devoradora de livros e dicionários) e o irmãozinho mais novo (devorador de batatas fritas). Ambos atentos à paisagem:

    - O cavalinho marrom é meu!

    - É meu. Eu vi primeiro!

    - Se ocê não dar ele pra mim, eu conto pro papai que te vi beijocando o Alex.

    - Mentira! Você não teria coragem de falar uma coisa dessas!

    - Falo sim.

    - E outra: não é “se ocê não dar”, viu? O certo é “se você não der”...

    - Pra mim tanto faz. Dar ou der, é coisa de mulher...

    - Meu Deus do céu! Onde aprendeu isso?

    - Com a tchurma...

    - É turma, seu porco chauvinista!

    - Credo! Porco o quê?

    - Só explico se você não contar nada.

    - Conto sim, numa boa...

    - Então eu conto pra mamãe que você tá comendo quilos e mais quilos de batata frita. E escondido.

    - Então, aquilo... aquela árvore amarela, com cor de batata-frita, é minha!

    - É minha porque só eu sei o nome dela. Aquilo é um majestoso ipê amarelo, viu?

    - Majestoso?

    - É. Sua Majestade, o ipê amarelo.

    - Então, aquela nuvem que parece um dragão é minha!

    - Pode até ser, mas não parece dragão. Parece mais é um jacaré.

    - Ocê nem enxerga direito. Ocê usa óculos...

    - Por isso mesmo. Enxergo melhor que você.

    - Quatro olhos!

    - Ignorante!

    - zarôia!

    - Estrupício!

    - Estrupício? O quê que é isso?

    - Tá vendo como você é ignaro?

    - Ignaro? O quê que é isso?

    - Tá vendo? Você não sabe nada...

    - Não perdo tempo lendo dicionáurios...

    - Por isso mesmo! E não é perdo, é perco. E dicionário não é dinossauro, nem dicionáurio não, viu? Você não passa de um gorducho abominável!

    - Abonimável? O quê que é isso?

    - Só conto se você desistir...

    - Tá bem! O ipê e o dragão é seu. Mas foi eu que vi primeiro.

    - O ipê e o dragão são seus, viu? E o certo é “fui eu quem viu” primeiro, tá?

    - Tá. Mas eu te dou só o ipê. O cavalinho e o jacaré fi ca comigo.

    - Ficam comigo, tá? Eu quero também a vaca malhada, o rio, a casinha branca e o cachorrinho vira-lata que fi cou lá perto da ponte.

    - Ficou ou ficaram? Não é muita coisa pra ficar? Então é ficaram...

    - Tanto faz. Nesse caso o verbo pode concordar com o substantivo mais próximo e...

    - Feito... pode até ficar com tudo. Mas primeiro me conta o quê que é abonimável?

    - Abonimável não! É a-bo-miiiiiiii-ná-vel, sua anta! Com mi antes do ni, entendeu?

    - Tá bem, sirigaita!

    - Sirigaita? O quê que é isso?

    - É coisa de homem pra mulher. Só conto se ocê me dar tudo de volta!

    - Tudo, tudinho?

    - É. O cavalinho marrom, aquilo amarelo majestoso, o dragão, a vaca malhada, o rio, a casinha branca e o vira-lata!

    - Tá bem, seu unha-de-fome, sovina, ridico, pelintra, resmelengo, usurário, ridículo...

    - Chiiiiiiii... assim não dá, é covardia!

    - Posso ficar com tudo?

    - Pode. Ocê venceu!

    - Mas me conta primeiro: o que é sirigaita? Se não, não te dou nada disso daquilo tudo...

    - Mistura de siri com gaita, só isso.

    O pai, no volante, dá uma gargalhada. A mãe sorri, feliz da vida. E ambos começam a cantar ao mesmo tempo, e sem saber, a mesma música: “Sirigaitas cigarras cantando/ quando/ solfejavam no campo/ as cirrigaitas...”

    A mãe pergunta:

    - Sirigaitas ou cirrigaitas, amor? O pai responde:

    - Tanto faz, meu bem. É assim que vamos indo.

    Um pouco além do destino a paisagem se contorce de alegria.

    Antonio Barreto, escritor, é de Passos. Entre seus livros destaca-se a novela O menino que não sonhava só (Editora Mercuryo Jovem-SP). Pedidos podem ser feitos pelo tel: 0xx(11) 5531-8222. / Email: [email protected] / Site: www.mercuryojovem.com.br

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