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Janeiro/Março 2020
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Turismo

Fisioterapeuta estuda e passeia em Pequim

  • Passar um mês se especializando na profissão e aproveitar o tempo vago para fazer turismo foi uma experiência cultural que mexeu com a fisioterapeuta de Passos Luna Vinhas Bueno

    País de dimensões gigantescas, de cultura milenar e que vive um momento de prosperidade econômica, a China é um país que encantou e ao mesmo tempo chocou a fisioterapeuta Luna Vinhas Bueno, de Passos, durante sua estadia de um mês em Pequim (ou Beijin), a capital, para uma especialização em acupuntura. As belezas naturais, os imponentes monumentos e palácios históricos, a comida de gosto surpreendente, o povo sisudo, tudo estava lá: a Grande Muralha, a Cidade Proibida, a Praça da Paz Celestial, os imensos e lindos jardins, os templos budistas, os monges e os sinais da modernidade, com os arranha-céus e os ginásios da Olimpíada de 2008 - como o Cubo D’Água e o Ninho de Pássaro, que despertaram admiração antes, durante e depois dos jogos.

     

    Contemplando a natureza e o grande monumento da Muralha
    Contemplando a natureza e o grande monumento da Muralha

     

    “A Muralha da China é a coisa mais fantástica, mais linda, que eu já vi na vida. Não dá para acreditar que foi o homem que fez”, disse, observando que esse monumento reconhecido pela Unesco – órgão da Organização das Nações Unidas (ONU) para a educação, a ciência e a cultura – se mantém como um atrativo até para seu próprio povo. “Os chineses vão para lá, passear, nos fins de semana”.

    Luna esteve na China em julho de 2009, com um grupo de fisioterapeutas de Ribeirão Preto que foi se especializar no berço da acupuntura. Eram oito pessoas ao todo, entre elas Andréia Moreira de Souza, de Itaú de Minas, companheira de Luna na maioria dos passeios, todos com uma guia local, que se comunicava com elas no idioma mais próximo do português, o espanhol.

    A Grande Muralha, um dos principais símbolos chineses, tem 7,5 metros de altura e extensão de oito quilômetros aproximados. Usada originalmente como estratégia de defesa do país, a construção desse monumento demandou cerca de dois mil anos, passando por várias dinastias. O trecho mais visitado pelos turistas chama-se Badaling e tem 3,7 quilômetros. É considerado o mais bonito e pode ser percorrido em cerca de meia hora.

    A Praça da Paz Celestial é outro ponto turístico obrigatório para quem visita Pequim. Simbolicamente, é o coração da capital, pois estão ali algumas das construções mais caras à cultura chinesa: o Monumento dos Heróis do Povo, construído por Mao Tsé-Tung, o líder da revolução cultural que mudou o país a partir da segunda década do século XX, com a fundação da República Popular da China, o Mausoléu do Mao e a Cidade Proibida, que em cuja entrada exibe uma gigantesca foto do líder, que tem o corpo sepultado no mausoléu do complexo.

                A Cidade Proibida é uma cidade dentro de Pequim. Com 980 edifícios, 720 mil metros quadrados de área e cercada por um muro de quase oito metros de altura e por um fosso de seis metros de profundidade por 52 de largura, o complexo foi construído nas dinastias Ming e Qing, entre 1406 e 1420. O termo “proibido” vem do fato de que apenas o imperador, sua família e empregados tinham acesso ao local. Os imperadores residiram ali até o século passado, quando se tornou ponto turístico. A Unesco reconheceu a Cidade Proibida como Patrimônio Cultural da Humanidade em 1987.

    “É lindo!”, recorda Luna. “O bonito da China são os jardins, muitos monumentos, estátuas, divindades, o Buda, as prática de artes marciais nos jardins, logo pela manhã”, acrescentou, demonstrando admiração.

    Empolgadas pela beleza do lugar, Luna e Andréia quase foram presas na Alameda dos Espíritos, que é o caminho para as Tumbas Ming, onde, entre outros, estão sepultados alguns imperadores - Chang Ling, Zhao Ling e Ding Ling – da dinastia Ming, que durou de 1368 a 1644. A alameda tem sete quilômetros de extensão e é formada por belas e altas árvores e inúmeras estátuas de guardiões dos mausoléus, esculturas com formas de guerreiros, animais e seres mitológicos.“É um lugar bem místico. E nós brincando com as estátuas, sem saber do que se tratava, até que um guarda nos chamou a atenção”, recorda Luna.

                Se em Nova Iorque (EUA) tem a Broadway com seus espetáculos musicais, os chineses tem a “Ópera de Pequim”, surgida no fim do século XVIII, na dinastia Qing, em que os atores atuam usando máscara no rosto. Os temas das montagens são baseados em contos, novelas e lendas locais, tradicionais e populares.

    A fisioterapeuta assistiu uma montagem e adorou o estilo dramático musical dos chineses. Para Luna, as máscaras podem simbolizar a situação do povo, principalmente na atualidade, que aparenta o que não é na realidade. É que apesar de atingir o segundo lugar na economia do mundo, a China ainda não deu condições satisfatórias de vida para sua população. “Vivem de forma precária, praticamente em cortiços, sem saneamento básico. Usam banheiros comunitários e muitos moram no local de trabalho, por causa da carga horária de até 18 horas por dia”, lamenta.

     

    Contemplando a natureza e o grande monumento da Muralha
    Contemplando a natureza e o grande monumento da Muralha

     

    Outra queixa da turista é sobre a alimentação chinesa, com a qual ela não se acostumou e passou vários dias se alimentando mal. “Eu olhava uma comida, achava que era de sal, mas ao provar, era de doce”, disse, falando também da higiene de restaurantes: cozinha engordurada, com cortinas de plástico sujas, garçons servindo à mesa segurando o alimento sem utilização de talher ou luva. “Num restaurante tinha um velhinho com um cachorro. Ele estava com um prato de sopa, que virou direto na boca (como se fosse um copo), gargarejou e depois deu para o cachorro!”, disse, lembrando uma das cenas curiosas e absurdas, para a cultura ocidental, que presenciou em Pequim.

    Por estranhar o gosto, a aparência da comida e situações como a descrita acima, a fisioterapeuta emagreceu quatro quilos em poucos dias. A falta de higiene pessoal também lhe causou constrangimento. “Achei muito estranho. Eles não escovam os dentes”, disse, contando que sentia o odor em toda conversa ou aproximação com chineses, sejam crianças ou adultos. O ar da cidade também não era bom, para Luna, que só durante a entrevista, ao recordar, conseguiu identificar o cheiro ruim. “Isso! a cidade tem cheiro de caldo de galinha”, disse.

    Também causou estranheza na fisioterapeuta a pouca receptividade dos pequineses. Eles não deixam o turista se aproximar de seus filhos, fogem aparentando medo de algo, e só relaxam um pouco quando veem uma máquina fotográfica ou alguém loiro, como a Andréia, amiga de Luna. “Eles olhavam para minha colega, talvez porque ela é loira, de olhos azuis, e pediam para tirar foto. Também pediam para tirarmos os óculos, por causa de nossos olhos grandes”, observa.

    Comparando os atrativos turísticos às mazelas sociais e ao comportamento chocante, Luna Bueno conta que “trouxe mais pontos negativos do que pontos positivos da China” e disse que ao voltar para o Brasil pensou em nunca mais pisar naquele solo. Entretanto, três anos depois, reavaliando o que viveu e aprendeu com os chineses, a fisioterapeuta mudou de visão. “Hoje eu voltaria, sim. Eu recomendaria a China para outras pessoas, por ser uma cultura tão diferente, tão importante para se aprender. E o povo chinês passa para a gente uma ideia de persistência”, disse.

     

    Especialização no berço da acupuntura

    No ano de 2009, um grupo de fisioterapeutas de Ribeirão Preto, Passos e Itaú de Minas passou um mês em Pequim, capital da China, fazendo curso de especialização em acupuntura, uma das técnicas médicas chinesas de origem milenar. Luna Vinhas Bueno, de Passos, e Andréia Moreira de Souza (Itaú), faziam parte do grupo de oito pessoas que estudou no Centro Internacional de Treinamento em Acupuntura de Pequim (ou Beijin) – na prática, um hospital universitário.

    As aulas eram de manhã e à tarde, de segunda à sexta-feira. À noite e nos fins de semana, os estudantes aproveitavam para conhecer a cidade e, principalmente, seus pontos turísticos. Foram aulas intensivas com renomados médicos chineses, que se comunicavam com os alunos em inglês, o qual era traduzido em espanhol.

    Segundo Luna, para um fisioterapeuta que trabalha com essa técnica milenar é fundamental se especializar onde ela foi criada e durante cinco mil anos vem sendo empregada no tratamento de doenças. “Na China, se a pessoa passa mal, ela é tratada imediatamente com acupuntura. Quando é operada, muitas vezes já sai da sala de cirurgia com as agulhas”, disse.

    Praticada rotineiramente pela medicina chinesa, junto com o chá e outros medicamentos tradicionais, a acupuntura só passou a ser estudada com mais profundidade no ocidente há poucos anos. Esse estudo começou pelos meridianos, que são uma espécie de mapeamento do corpo humano feito pelos chineses para a colocação das agulhas.

    “Do ano 2000 para cá, a medicina ocidental começou a estudar e descobriu que esses meridianos são os trajetos nervosos”, disse Luna Bueno, explicando que na prática, a acupuntura recupera o equilíbrio energético do paciente, que é importante para a cura ou alívio da doença. “Só não cura o que é cirúrgico ou terminal, mas alivia os sintomas”, disse, afirmando que as agulhas são também ótimas contra estresse, ansiedade e depressão.

    O reconhecimento por parte da comunidade médica ajudou o governo federal a incluir a técnica no SUS (Sistema Único de Saúde), permitindo que pacientes que não podem pagar um tratamento particular possam usufruir dos benefícios da acupuntura. “A China é o berço das terapias orientais. Todas essas terapias alternativas nasceram no oriente”, comentou.

     

     

     

    Enio Modesto

    Pratos típicos da culinária chinesa em restaurante de Pequim; sabores não agradaram a turista
    Contemplando a paisagem e o grande monumento da Muralha
    Em frente ao hospital universitário de Pequim
    Luna Bueno posa em frente a uma das inúmeras estátuas de Buda
    Luna em templo budista, durante momento de reflexão
    Luna sentada num escultura de camelo na Alameda dos Espíritos; por pouco não foi presa por isso
    Os fisioterapeutas posam com chineses no estádio Ninho de Pássaro, que foi sensação na Olimpíada de 2008
    As fisioterapeutas (com a guia à esq.) em frente à Praça da Paz Celestial, onde está a Cidade Proibida
    A fisioterapeuta junto a algumas estátuas do Exército de Terracota, da dinastia Qin
    Andréia e Luna com monge budista, que lhes passou mensagem de paz
    Apresentação de peça dramática da Ópera de Pequim

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