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Janeiro/Março 2020
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Literatura e Cultura

Antônio Barreto: A Casa do Pai

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    Como seu próprio pai, aos dezoito anos, você também saiu de casa para poder conquistar o mundo.

    Pouco depois, se casou. Casou porque descobriu que faltava alguma coisa naquele vazio semiestrutural que habitava sua indecifrável realidade. Você dialogava com as sombras. Era quase uma casa sem cômodos. E o simples reconhecimento dessa falta já era o início de uma provável completude.

    Aos trinta, o imponderável. Para reinventar o cotidiano, você quis ter um filho. Considerou que um homem precisa de filhos. Para poder se olhar no espelho de um modo inteiro. Mesmo quando esse homem possa ser encontrado aos pedaços. Como uma casa depois de outra casa, após o bombardeio, o dilúvio, o terremoto, o tsunami.

    “Mas uma casa também precisa de janelas. E são os filhos que abrem as janelas de um homem, para que sua alma possa passear lá fora.” – você filosofou.

    E quando ele nasceu foi um dia de glória. A figura do pai, como manda o figurino, distribuiu charutos aos amigos numa mesma frase:

    – Saco roxo, viram?

    E você gargalhou, bebeu, comeu. Comemorou a alegria de tê-lo tão parecido consigo. O mesmo queixo, o mesmo nariz, os mesmos olhos. E quem sabe, talvez, o mesmo caráter, a mesma determinação, a mesma garra de vencer. A mesma alma.

    Porém, não possuindo ainda sua casa própria, aos seis meses o menino engatinhou. Falou mamã, pesquisou o entorno de seu pequeno mundo, pôs o dedo nas tomadas e compensou suas noites de insônia com as gracinhas que fazia aos pés do pai, puxando a barra do pijama e murmurando papá.

    Cinco anos depois ele se fantasiou de tudo que é possível a um menino, ao ir além do possível e do inimaginável, para imaginar seu pai como herói: Impossível Kid, o Herói dos Heróis. E pediu que o pai, agora herói de verdade, lhe contasse histórias de pai. Ou mesmo que o pai, agora Só-pai, lhe contasse histórias de Pai-Só-Menino. Mas não houve tempo. Você trabalhava muito longe de casa para comprar o lote onde construiria a casa.

    Primeiro o sonho da primeira pessoa do plural. Nós. E fugir do aluguel. Depois o sonho da terceira pessoa do singular. Ele. E fugir. Fingir de Nós onde só havia Eu. E desatar, conforme os próximos dias imprecisos ou indecisos o fio da meada, a filosofia: “A vida é muito curta…”. Não é o que todo mundo diz?

    Quando ele fez dez anos, porém, o lote já estava pago. Mas você não pôde comparecer à festinha de aniversário: estava longe outra vez. Agora trabalhava duro para armazenar cimento, areia, britas, tijolos, ferragens e ferramentas com as quais ergueria a casa. E com as quais você daria a ele, seu querido filho, um comecinho do futuro. Ou, pelo menos, um pouquinho da dignidade do futuro.

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    Aos doze anos ele falou que já era alvinegro, como o pai. Escalou o time inteiro pelo telefone. Deu o nome das namoradas. E desejou que você viesse no domingo para levá-lo ao futebol. Mas você desconversou:

    – Não vou poder, filho.

    – Por que, pai?

    – Porque tenho que fazer hora extra.

    – Pra quê, pai?

    – Pra pagar mão de obra, serventes, pedreiros…

    – Então, pai, fica…

    – Fica pra qualquer dia desses, filho. Você me entende, não é?

    Aos quinze anos ele teve a primeira dor de amor. Tomou um porre. Quis morrer. Quis fugir pra Karaganda, Godthaab, Kuala Lumpur. Ou para Impossible City. E a mãe avisou a tempo:

    – Está ficando cada vez mais triste. Conversa com ele, Juca. Ajuda a fazer o dever da escola, pelo menos…

    Mas você tinha que acabar de erguer a casa. Não podia deixar a obra sem telhado, porque as primeiras chuvas de outubro estavam prestes a cair.

    Em novembro você socou a laje. Conseguiu armar as tesouras com os caibros e as ripas. E quando dezembro desenhou no céu as nuvens de chumbo, as chuvas fortes desabaram. No entanto, como a casa já estava coberta com o invólucro das melhores telhas, as tempestades de vento e granizo não foram suficientes para derrubar o que você fora capaz de construir, solidamente, durante esses anos todos.

    Aí, quando ele fez dezoito anos (um novo ano também começando), a casa ficara completamente pronta. Paredes finamente pintadas. Pisos de tábua corrida na suíte e nos quartos. Sala em ardósia com apliques de sucupira. Azulejos decorados até o teto. Granito na cozinha e nos banheiros, peças de metal e porcelana de primeira linha. Portas em ipê-extra, marcos de angelim-pedra. Vidros jateados nas janelas dos cômodos íntimos. Banheira de hidromassagem. Lareira de refratários em tijolos recozidos e cuidadosamente cortados. Frisos de madeira rústica nos detalhes dos beirais, das cantarias e dos peitoris. Móveis novos. Eletrodomésticos novos. E, para completar, uma varanda em “L” emoldurando a entrada dos jardins.

    Então, exausto, você falou:

    – Ufa! Agora podemos conversar, meu filho. Está tudo pronto. Gostou do seu quarto? Gostou das cores, das paredes, das estantes novas? Gostou da cama? E aí, como vão as coisas?

    – Tudo bem, pai – ele respondeu.

    E como seu próprio pai fizera. E como você também fizera, ele deixou sua alma escapar pela janela. E bateu a porta de casa… para voltar muitos anos depois. Depois que também ele – como você – tivesse conquistado o mundo.

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