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Janeiro/Março 2020
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Literatura e Cultura

Os 7 samurais da família sato

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    Eram sete irmãos japoneses tão parecidinhos, tão parecidinhos que causavam a maior confusão entre os seus vizinhos.

    À exceção de seu Sato, o pai, e dona Misuko, a mãe (além, é claro, do Instituto de Identificação de São Paulo), ninguém mais conseguia distingui-los.

    Por fora tinham quase todos a mesma altura, o mesmo cabelo escuro e lisinho, a mesma pele amorenada, os mesmos olhinhos puxados, os mesmos gestos, o mesmo sorriso, a mesma voz e a mesma maneira de andar pelas ruas do bairro da Liberdade: aos pulinhos. Mas, por dentro, faziam entre si uma grande diferença.

    Todo dia Tizuê brigava com Sumiko porque preferia o branco da paz, e não o vermelho da guerra. Sumiko brigava com Hirashi porque preferia a água salgada do mar à água doce dos rios. Hirashi brigava com Kokeshi porque preferia a harmonia melodiosa das flautas ao barulho infernal das guitarras. Kokeshi brigava com Mariko porque preferia o calor arrebatador dos trópicos ao gelo das regiões polares. Mariko brigava com Kioko porque preferia a reta à curva, a dança vertical da chuva aos redemoinhos de vento. E Kioko brigava com Sushi porque preferia comer sushi e não sashimi.

    Brigavam na hora de acordar, na hora de ir pra escola, na hora do almoço, na hora de fazer o “para casa”, na hora de brincar, na hora de ouvir o som, na hora de ver televisão (a pior hora), na hora de jantar e na hora de dormir. E, quando sonhavam, sonhavam também que estavam se beliscando, se unhando, puxando os cabelos, xingando palavrões (em português mesmo), puxando as orelhas, se mordendo e, por último, atirando o controle remoto um no outro. Tanto isso é verdade que, semanalmente, seu Sato gastava uma nota preta nas Lojas Eletrônicas Arigatô, mandando consertá-lo.

    Arre! Pareciam sete samurais em pé de guerra, os sete japinhas da família Sato!

    Mas o tempo foi passando. Os pais foram envelhecendo, calados. Dona Misuko só falava com seus botões: “nosso mundo não é mais redondo...”. Seu Sato também falava com seus botões: “o bambu enverga, mas não quebra...”. 

    Até que um dia, por essas bobagenzinhas da vida, essas pequenas coisas que a gente deixa ficarem grandes, se separaram.

    Tizuê brigou com Sumiko por causa de uma japona verde-oliva que a irmã tingiu de vermelho. E foi embora de casa. Sumiko brigou com Hirashi por causa de uma torneira que não parava de pingar. E também sumiu. Hirashi brigou com Kokeshi por causa do CD de uma banda de rock, e se mandou pro Paraná. Kokeshi brigou com Mariko na hora de tomar banho quente. E também se foi. Mariko brigou com Kioko por causa de um pé de bambu encurvado que viram numa fotografia. E viajou pra Bahia. Kioko brigou com Sushi por causa de um prato de teishoku e foi trabalhar de garçonete num restaurante das Europas. E Sushi, sem com quem brigar, pôs a mochila nas costas e viajou escondido no porão de um navio que estava parado em Santos.

    Muitos anos se passaram.

    Seu Sato envelheceu mais ainda e Dona Misuko também. Mas, sabiamente, os dois agora repetiam um só pensamento com seus botões: “o bambu enverga, mas não quebra...”.

    Até que um dia, milagrosamente combinado, os filhos voltaram: globalizados.

    Tizuê estava casada com um soldado afro-americano chamado Edward Brown, que só comia eggs com bacon. Sumiko havia se casado com um beduíno das arábias chamado Ali Wadi al-Watar, que nunca tinha visto o mar e só comia (sem talheres) carneiro assado. Hirashi se casou com Paulinha Pauleira, uma crooner metaleira que só comia arroz integral com salada de agrião, sem molho. Kokeshi se casou com uma esquimó gordinha chamada Markika, que detestava picolé, mas adorava sorvete de gordura de foca. Mariko se casou com um capoeirista baiano chamado Mestre Bé, que só tocava berimbau e comia vatapá com pimenta malagueta. Kioko se casou com um fotógrafo alemão chamado Heinrich, que só comia salsicha com salsicha. Só Sushi não se casou com ninguém. Mas voltou com uma amiga italiana chamada Conchetta (que só comia espaguete, talharim e pizza) e outra amiga francesa chamada Nadine (que só comia quenelle avec salade Danton et champignon du poulet à la basquaise... ou seja lá o que isso seja!).

    Quando eles chegaram, seu Sato e dona Misuko, sorridentes, felizes e inseparáveis como dois pauzinhos de comida japonesa, falaram ao mesmo tempo:

    - O bambu enverga, mas não quebra!

    E serviram, no almoço, uma bela feijoada com brotos de bambu.

    Assim, selaram as pazes. E o mundo entre eles, novamente, ficou redondo como o sol nascente.

     

    Antonio Parreto

     

     

    Antonio Barreto, escritor passense, é autor do romance A barca dos amantes (Editora Lê-BH). Pedidos podem ser feitos pelos telefones: 0xx(31) 3423-3200 / 0xx(31) 2517-3001 / Email: [email protected] / Site: www.le.com.br

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