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Janeiro/Março 2020
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Turismo

A experiência de viver na República da Irlanda - um país hostil a estrangeiros

  • Como um estudante de economia, de Passos, sobreviveu um ano na República da Irlanda, onde parte da população não quer saber de estrangeiros. André Nunes, em Dublin, morou numa casa de estudantes e lavou pratos num restaurante para bancar mais viagens.

    Monumento SPIRE - Ponto de referência em Dublin.
    Monumento SPIRE - Ponto de referência em Dublin.

     

    Juntando o desejo de viajar pela Europa e a oportunidade obtida enquanto iniciava o curso de economia na PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Campinas, o estudante passense André Gonçalves Oliveira Nunes embarcou num intercâmbio de curso de inglês durante um ano na República da Irlanda, onde viveu experiências marcantes. Enquanto se aperfeiçoava no idioma de William Shakespeare, André foi conhecendo o comportamento irlandês, elogiável em diversos aspectos, mas reprovável pelo menos no relacionamento com estrangeiros. Afetados seriamente pela crise econômica européia, os irlandeses passam por dificuldades financeiras e se aproveitam para hostilizar quem é de fora.

    Os principais agressores são bêbados e gangues de crianças pobres. André conheceu um rapaz que tomou uma pedrada na cabeça e ele mesmo já foi atingido por um ovo jogado por um menino – para demonstrar à vítima que ela não é bem recebida . “Têm bêbados que batem nas pessoas só porque elas são estrangeiras ”, disse o jovem que morou em Dublin, a capital da República da Irlanda, durante um ano – de agosto de 2010 e agosto de 2011.

    Situada a Noroeste da Europa e a Oeste da Inglaterra, a Irlanda é uma ilha de 70.284 quilômetros quadrados, dividida em dois estados: a Irlanda do Norte, que ocupa cerca de 17% do território e é vinculada ao reino da rainha Elizabeth II, e a República da Irlanda, com os 83% restantes, onde moram 3,6 milhões de pessoas, segundo dados demográficos de dois anos atrás. O nome tradicional da República da Irlanda é Eire, segundo o idioma original (céltico ou gaélico). No entanto, a grande maioria dos habitantes fala a língua que André Nunes foi aperfeiçoar.

    O interesse pelo intercâmbio estudantil foi despertado no jovem de Passos quando ele viu uma reportagem sobre casos de pessoas que trabalhavam no estrangeiro para complementar o curso universitário com uma boa bagagem cultural. Com esse pensamento, o estudante planejou sua viagem bem antes de entrar na PUC. Uma das decisões foi pelo curso noturno, já que no período integral não poderia fazer estágio em alguma empresa para juntar o desejado dinheiro da viagem.

    André Nunes começou o curso de economia em 2007 e depois de algum tempo conseguiu um bom estágio numa empresa fabricante de aparelhos celulares. Em dez meses, ele economizou R$ 12 mil, pediu contas, trancou a matrícula, matriculou-se numa escola de inglês na Irlanda e fez as malas para a viagem.

    No novo país, a situação não foi fácil para o estudante, tanto em relação à adaptação num país de costumes tão diferentes do Brasil quanto para conseguir um emprego satisfatório e ao mesmo tempo cumprir uma das condições do programa de intercâmbio - trabalhar.

    Até encontrar um emprego que atendesse suas necessidades, André fez diversos “bicos”, dentre os quais, de entregador de jornal e serviços gerais num pub. O trabalho no restaurante veio três meses depois e foi bom porque o jovem conseguiu juntar dinheiro – 12 mil euros – e ainda se alimentar bem. Tanto que até engordou, ao contrário de seus colegas de moradia que comiam mal e acabaram emagrecendo.

    André Gonçalves Oliveira Nunes - Catedral de St Patrick.
    André Gonçalves Oliveira Nunes - Catedral de St Patrick.

     

    Nesse restaurante, André fazia limpeza e lavava pratos. O salário era semanal, 300 euros. Esse dinheiro ele juntou e gastou “conscientemente” no mochilão pelos outros países. Os R$ 12 mil levados do Brasil foram usados para pagar as despesas com aluguel, alimentação e outros gastos. “O custo de vida lá é barato, eu consegui pagar com o dinheiro economizado no Brasil”, disse.

    A Irlanda não era a primeira opção do estudante para o intercâmbio. A Inglaterra era a preferência, mas ficou para trás por causa da burocracia. “Na Irlanda é só comprar a passagem, pagar uma escola e ir”, explica. Quando ele desembarcou no aeroporto de Dublin, teve que apresentar somente a carta da escola e o seguro de saúde.

    Amizades com habitantes, o brasileiro não fez, embora tivesse trabalhado num estabelecimento tipicamente irlandês. “São muito fechados e em geral são preconceituosos”, disse, contando que seu relacionamento se restringia aos sete colegas de moradia, cada um de uma nacionalidade: romena, alemã, húngara, polonesa, irlandesa, espanhola e francesa, além dele. Ao todo, eram quatro homens e quatro mulheres. Foi com essa turma que ele morou na segunda metade da estadia na Irlanda, a partir da virada do ano de 2010 para 2011.

    Na primeira casa ele ficou só uma semana. Lá ele conheceu um brasileiro e com este montou uma nova residência, dividindo-a com outro conterrâneo, um italiano e um indiano. Os primeiros meses em Dublin foram difíceis, segundo André. Descontente com a qualidade de ensino da escola, sem emprego e a saudade de casa fizeram com que ele chegasse a se arrepender do intercâmbio. Mas ao conseguir o trabalho no restaurante o ânimo mudou.

    A cultura irlandesa e as normas rígidas deixaram uma boa impressão em André, que não tinha qualquer referência turística sobre o país e a própria capital. Ao chegar, ele já achou estranho não haver prédio alto, mas achou bela a arquitetura dos edifícios de poucos andares. A limpeza das ruas, com duas ou três lixeiras num único quarteirão, os belos e cuidados parques públicos – onde as pessoas vão passar o intervalo do trabalho – e o respeito que os cidadãos têm pelos policiais, que não andam armados, provocaram admiração do brasileiro.

    “O que mais me impressionou foi a organização deles, que têm um nível intelectual bem alto, lêem bastante. Lá o livro é barato e todo mundo é qualificado para o trabalho”, observa o estudante. Além da leitura, os irlandeses gostam muito de cinema, tanto que pagam por semana (40 euros), para assistir quantos filmes quiser.

    castelo em howth, cidade ao sul.
    castelo em howth, cidade ao sul.

     

    Uma curiosidade engraçada, lembrada por André. No dia 29 de fevereiro, que ocorre a cada quatro anos (em anos bissextos), praticamente ninguém sai de casa, pois é o único dia que a mulher pode pedir o homem em casamento, e ele tem que aceitar.

    Por outro lado, um costume local não tão admirável assim: “À noite, só bebedeira. A vida noturna em Dublin é muito agitada, de segunda a segunda. Os pubs abrem do meio dia às três da manhã”, conta o jovem, explicando que esse horário é regulamentar e todo mundo obedece. Mas há quem acaba burlando a lei e promove as chamadas “after party”, que são obviamente clandestinas e são regadas à álcool e drogas. André conheceu uma dessas festas, disse que ficou muito assustado com o ambiente e não voltou mais.

    Os irlandeses também não são muito afeitos a cozinhar em casa. Comer fora, de preferência o “fast food”, basicamente batata e peixe fritos, são os principais pratos do cardápio daquele país. Por isso, trabalhar no restaurante foi um ótimo negócio para André, onde ele podia comer à vontade, embora sentisse saudade da culinária brasileira. Quando conheceu uma loja de um conterrâneo, que vende só produto brasileiro, André matou a vontade. “Para achar um feijão carioquinha como o nosso demorei um bom tempo, mas encontrei só numa loja de um brasileiro. Quando vi a farofa Yoki quase chorei”, recorda.

    Embora os irlandeses estejam em meio à grande crise economia da zona do Euro – moeda comum entre vários países europeus -, e com uma taxa de desemprego de 15% da população economicamente ativa, não é difícil para um estrangeiro conseguir uma ocupação, porque o povo local, mesmo os pobres, não gosta muito de fazer trabalhos mais humildes, como os que André fez para juntar dinheiro. O estudante acredita que programas sociais do governo, uma espécie de bolsa família para os mais carentes, e o seguro-desemprego para os desempregados, fazem com que muitos optem por não fazer qualquer tipo de serviço. “Pobre lá não passa fome. Os únicos sem-tetos que você encontra são usuários de drogas”, disse o estudante.

    No meio e no final da estadia, o estudante fez um “mochilão”, termo usado por turistas que se aventuram por vários países europeus, num curto período de tempo e sem pagar tanto pela viagem. “É difícil, mas compensa. Pelo tanto de experiência que você adquire, é muito compensador”, avalia o estudante. O primeiro mochilão aconteceu na própria ilha, onde o estudante conheceu oito cidades, entre elas, Belfast, capital da Irlanda do Norte.

    Findo o período do intercâmbio, e com o dinheiro do trabalho no bolso, André Nunes fez o que sonhava: o mochilão pela Europa. Em 30 dias ele passou por 14 países – Espanha, França, Bélgica, Holanda, Inglaterra, Noruega, Suécia, Dinamarca, República Tcheca, Áustria, Hungria, Eslováquia, Itália e Grécia. “A maioria desses países está em crise por causa dos gastos públicos, muita corrupção...”, disse o estudante, dizendo ter conversado com moradores locais e que a queixa é basicamente essa. 

    Enio Modesto

    André Gonçalves Oliveira Nunes - Catedral de St Patrick.
    Rua onde morou André - Estilo da arquitetura.
    Catedral de Christ Church - a mais famosa de Dublin.
    Principal avenida de Dublin e logo a frente a Ponte O?Connell sobre o Rio Liffey que separa a cidade. Nesta foto observamos o estilo da arquitetura (não há prédios altos). À esquerda, o famoso SPIRE of DUBLIN - monumento alto, em forma de agulha, com 120m de altura - Nome ofi cial: ?Monumento da Luz?.
    Quintal da casa.
    Vista da janela do quarto.
    Moradores da casa.

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