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Janeiro/Março 2020
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Literatura e Cultura

Cavalo

  • Cavalo não fala: só dá bom dia pra outro cavalo.

    É triste de botar penas em passarinho jururu. Vai pastando o silêncio de sua alma, procurando o fi o da meada.

    Depois vem o baixeiro, a manta, o arreio e os alforjes. E o estribo pro dono subir nas alturas de seu tombo... E o bridão no final da rédea, pra calar a boca. Pro cavalo não contar pra ninguém que o dono caiu.

    É mesmo assim, desde cedo.

    Cavalo é escravo da segunda-feira, no domingo.

    Pior: cavalo não bota roupa de domingo pra ir na cidade virar cidadão, saber notícias, contar lorota, desfazendar- se. Nem botina nova pra ir na missa. Fazer de conta que Deus está por perto, zoiando tudo, de menesgueio...

    Cavalo só reza de boca fechada, debaixo da paineira.

    Paineira é igreja de cavalo.

    Mas cavalo também vai se acostumando com a brabeza do dono. E ninguém percebe.

    Só fala de orelha, cochichado, de rabo de olho, com ternura e ódio juntos no mesmo pacote de capim. Espuma sal na dor da espora, aguenta o tranco, o peso dos galopes do mundo. Se trista de sua sina, ruminado: marchar pra lugar nenhum.

    Porém, quem já viu sabe, a coisa mais alegre da vida é um pangaré falando, quando fala, no clopeclope das pradarias: um burrico de carroça, de olaria, buscando serviço de nefelibata ou literato alambicado. Livre dos arreios, disparado, relinchão, inspirado...

    Isso é a felicidade de quem recobre no escuro o que no claro se descobre.

    Porém, silêncio de cavalo é parecido com silêncio de gente. Quando a gente silencia: puxa a carroça.

    Quando a gente fala: galopa até o fim do mundo. No beleléu.

    por Antonio Barreto

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