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Janeiro/Março 2020
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Saúde

Quando dormir se torna um transtorno

  • Ronco e apneia trazem problemas orgânicos, psicológicos e sociais. Hábitos saudáveis e orientação médica com tratamento individualizado ainda são as melhores alternativas para prevenir ou combater a doença.

    O Otorrinolaringologista Gleison Kallás Andrade: “Toda pessoa que ronca alto tem algum grau de apneia.”
    O Otorrinolaringologista Gleison Kallás Andrade: “Toda pessoa que ronca alto tem algum grau de apneia.”

    Além de um distúrbio orgânico, o ronco e a Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS) são também um problema social, na medida em que atrapalham a convivência dos cônjuges ou companheiros de quarto, trazendo prejuízos psicológicos e sociais.

    Mas afinal, o que causa o ronco? E qual a diferença entre ronco e apneia? O ronco é o ruído produzido pela vibração dos tecidos moles da garganta. A apneia do sono é a obstrução das vias aéreas por alguns momentos durante a noite, pela flacidez dos tecidos da garganta, impedindo a respiração por alguns segundos, várias vezes por noite. Sem oxigenação, o portador da apneia sofre interrupção do sono – que muitas vezes nem é percebida por ele - e poderá ter cansaço permanente no decorrer do dia.

    As consequências deste quadro podem ser sobrecarga cardiocirculatória, sonolência durante o dia, baixo rendimento intelectual, sexual e no trabalho, irritabilidade persistente, maior chance de acidentes ocupacionais, ao dirigir veículos e mais propensão a doenças como acidente vascular cerebral, hipertensão, diabetes, entre outras.

    Os dois problemas andam de mãos dadas. “Toda pessoa que ronca alto tem algum grau de apneia”, ressalta o otorrinolaringologista Gleison Kallás Andrade. “Se a pessoa tem sonolência durante o dia, se tem irritabilidade, difi culdade de concentração, se dorme com facilidade ao ler ou assistir televisão, é aconselhável que ela procure orientação médica, pois ela pode sofrer de apneia do sono”, alerta.

    Prevalência

    A prevalência do ronco varia de 25% a 60% na população adulta, enquanto a apneia do sono acomete de 2% a 24% dos adultos, dependendo dos critérios utilizados para o diagnóstico. Um estudo recente realizado com 1.042 voluntários da cidade de São Paulo submetidos a polissonografia – exame em que o paciente dorme na clínica monitorado ao longo da noite por equipamentos que detectam distúrbios no sono - identifi cou apneia em 32,8% deles.

    Para Dr. Gleison, problemas como ronco e apneia, apesar de estarem muito presentes na vida das pessoas, ainda são negligenciados. Ele cita que uma pesquisa realizada nos Estados Unidos identifi cou que 40 milhões de americanos têm algum tipo de distúrbio do sono, mas 95% deste contingente não sabem que sofrem do problema. “Se nos Estados Unidos, um país onde as pessoas têm mais acesso à saúde, o problema já é negligenciado, imagine no Brasil? Na verdade, o paciente só fica sabendo que sofre de ronco ou apneia porque o cônjuge ou companheiro de quarto reclama do barulho e percebe que o sono do parceiro é sempre muito agitado.”

    Diagnóstico

    Antes da polissonografia, o diagnóstico do ronco e da apneia deve ser precedido por exames otorrinolaringológicos, de nasofi brolaringoscopia (avaliação do nariz, garganta e laringe) e uma detalhada anamnese (conversa com o paciente). Todos os exames são indolores e não requerem anestesia.

    A polissonografi a é um dos métodos mais efi cazes de se detectar distúrbios do sono.
    A polissonografi a é um dos métodos mais efi cazes de se detectar distúrbios do sono.

    Tratamento 

    O ronco e apneia atingem mais homens que mulheres. Um dos fatores que mais predispõe a pessoa a desenvolver estes distúrbios de sono é a obesidade: os obesos sofrem uma redução do “espaço aberto” da orofaringe devido à deposição de gordura ao seu redor, o que difi culta a passagem do ar. Ainda não se pode falar em cura para todos os pacientes que sofrem de ronco e apneia. O que existem são alternativas para minimizar o problema. “O tratamento é individualizado. Deve-se analisar caso a caso, porque o tratamento que surte efeito em um paciente pode não surtir em outro”, pondera Dr. Gleison.

    Entre as formas mais comuns de tratamento estão os aparelhos intraorais de avanço mandibular (que devem ser desenvolvidos por dentistas especializados); o uso de uma máscara nasal chamada CPAP (sigla em inglês para Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas), que é conectada a um compressor de ar que faz uma pressão positiva na via aérea, forçando a passagem do ar; e as cirurgias (nasais, palatais e de avanço mandibular).

    “Qualquer que seja o tratamento escolhido, ele deve começar com a chamada higiene do sono, que também é a melhor forma de prevenção do ronco e da apneia”, destacou o médico.

    Entre as recomendações para uma boa higiene do sono estão: ter horários regulares para dormir; evitar estimulantes como café, refrigerantes com cola, chá preto e chocolate; não tomar bebidas alcóolicas, pois estas fazem relaxar a musculatura, aumentando a possibilidade de desenvolvimento do ronco e da apneia; evitar comidas pesadas ou em grande quantidade três horas antes de dormir; evitar tranquilizantes sem orientação médica; dormir em quarto escuro, evitar dormir de barriga para cima e evitar atividades físicas à noite, dando preferência aos períodos da manhã ou início da tarde, já que a prática de exercícios tende a tornar a pessoa mais desperta.

    Lívia Ferreira

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