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Janeiro/Março 2020
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Literatura e Cultura

Esse medo de perder as horas... em nosso bosque repleto de relógios.

  • Falta muito pouco para o dia nascer. E às vezes fico pensando, meio triste, que a cidade poderia ser apenas um bosque.

    Um bosque onde pudéssemos nos perder para sempre, e todo dia. Todo dia um novo medo. O medo bom de se perder num lugar onde não há faltas, onde não há excessos. Onde não há entradas, onde não há saídas.

    Apenas um lugar bom para se perder. Se perder de esperança e de fé. Por mais que essas palavras já estejam surradas e chicoteadas pelos charreteiros do dia velho, esse que agora, daqui a pouco, vai morrer. Mas se perder, antes de mais nada, de felicidade. A felicidade de estar vivo para poder se perder de tudo. Se perder de dia e se perder de noite. Se perder de sol e se perder de lua.

    Mas como perder-se num lugar onde alguém pode encontrar- -se?

    Talvez o melhor fosse não temer esse momento. Perder-se também é necessário. Senão, como recordar a aventura que é alguém andar sozinho consigo mesmo?

    Mas, se é preciso saber onde se perde alguma coisa, por que ou por quem se perde alguma coisa, é necessário ir ao bosque para isso? Não. Não é preciso ir ao mundo para perder-se. O mundo é que nos procura, todo dia, todo minuto, para que nos percamos dele. E nós, com medo de fantasiá-lo, nos fantasiamos de coisas invisíveis. Para que o mundo não nos encontre fantasiados de realidade.

    Então descubro que é necessário fantasiar a cidade como um bosque.

    Lá, entre as árvores que suportam o peso azul do céu, ou mais adiante, entre as árvores que fazem margem ao mundo, podem estar todas as coisas que queríamos encontrar.

    Já imaginou, caro amigo, da noite que dá voltas dentro de um susto, a maravilha de encontrar o dia? Ou melhor: já imaginou como é descobrir que essa noite, com estrelas e tudo, nos pertence?

    Já imaginou, amiga, que pode haver muitas horas de domingo dentro de uma segunda-feira inacabada? Ou um sábado esperançoso, alegre e indeterminado se movendo nos minutos de uma interminável quinta-feira? Ou uma primavera florescendo entre as nuvens passageiras do inverno. E os ventos de abril disfarçando o verão com as folhas secas de outono? Não tenha medo de se perder no bosque, porque nós, como os relógios, estamos mesmo sempre atrasados.

    Nós, disfarçados de alguma coisa, disfarçamos todas as coisas. Para que elas possam disfarçar nosso medo de enxergá-las.

    De que outra maneira, então, vão crescer nossos olhos. Ou nosso olhar vai alongar-se?

    Não é preciso temer, repito, perder-se no bosque. Aí principia o começo. O medo só serve para ser trancafi ado em casa.

    Veja e chame o Novo Dia agora mesmo. Convide-o a seguir o caminho que serpenteia entre as árvores. Esse que sobe. Esse que parece perder-se... Esse o levará a descobrir o que você quer. 

    Não tema o Dia Novo. No final, como nos contos de fadas, há sempre uma casinha de chocolate escondida no meio do bosque.

    E um relógio de corrente na porta, que vai batendo e murmurando:

    - Estou atrasado! Estou atrasado!

     

    .

     

    Antônio Barreto

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