Última Edição
Janeiro/Março 2020
Janeiro/Março 2020

Literatura e Cultura

Silêncio

  • Coisa mais triste da vida é não ter o que falar.

    A gente fica agachado, ruminando ideia manca, que não anda sozinha. Ideia que só faz psiu.

    E não adianta ser valente, herói ou cavaleiro que vai salvar a princesa.

    Silêncio faz a gente abaixar os olhos no terreiro, procurar os vazios do chão. Mas só acha florzinha de capim pra chupar, palitar os dentes, por falta de assunto.

    Ou então, lá dentro, descobre um fio de cabelo no ladrilho da sala. Um prego enferrujado no canto da parede. Uma teinha de aranha atrás da porta. Um inseto já falecido, na greta do piso. E nem um “oi de casa” a gente ouve.

    Silêncio é assim: deixa a gente com jeito de rolinha fogo apagou, de asa quebrada. Com jeito de piabinha que ainda não aprendeu a nadar. Com jeito de minhoca parada na areia quente. 

    Certa feita, depois da chuva, meu silêncio ficou tão grande que escutei ele mandando fazer psiu, pra não ouvir o bibilhar da goteirinha pémpém numa latinha velha, de baixo do beiral da casa.

    Silêncio, também, é a pior falta de assunto que pode existir no leito de um corguinho secando, de madrugada. 

    Ou num galho de árvore desfolhada, sem picapau esbilhotando. 

    Ou na beira de uma janela que acaba de ser fechada.

     

    .

     

     

     

    .

     

    Antônio Barreto

    © 2019 Foco Magazine. Todos os direitos resevados.