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Janeiro/Março 2020
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Literatura e Cultura

A SANDÁLIA DO GIGANTE ou filho de peixe, peixinho não é...?

  • À memória de Wander Piroli, um baita cara, quem primeiro sacou que “os rios morrem de sede”.

    Como todo mundo sabe, pescador gosta de contar lorota. Tem mania de aumentar o tamanho do peixe:

    - Pesquei um mandi tão grande, mas tão grande, que só a fotografi a dele pesava sete quilos!

    Pois bem. Seu Pipi, certo dia, arrumou os caniços, as linhas, os anzóis e chamou o filho:

    - Pipinho, amanhã vamos pescar!

    Pipinho deu pulos de alegria. Era a sua primeira pescaria.

    De manhã entraram no jipe e saíram pela estrada afora. Viajaram até um lugar do rio onde, antigamente, Seu Pipi costumava tirar piaus, traíras, papa-terras, mandis e, às vezes, até um dourado arisco.

    Jogaram as linhas e ficaram esperando. De repente a linha de Pipinho se mexeu. Rapidamente, conforme o pai havia explicado, ele puxou a vara.

    Surpresa e decepção: na ponta do anzol, balançando, apenas o esqueleto de uma sandália velha, encardida e malcheirosa.

    Assim passaram o dia todo. Ao final da tarde contaram os “peixes”:

    - 3 garrafas plásticas de refrigerante

    - 8 latinhas de cerveja

    - 3 carcaças de pneu

    - 11 saquinhos de supermercado

    - 2 latas de sardinha

    - 1 calção de banho rasgado, e aquela velha sandália velha...

    Voltaram tristes para casa.

    - Nem um lambarizinho, meu Deus! O que fi zeram com este rio?

    Quanta poluição!!! – o pai falava, desconsolado.

    - Da próxima vez a gente vai em outro lugar, né pai?

    - Prometo, filho. Nem que eu tenha que revirar a Terra de cabeça pra baixo, ainda vou achar um lugar onde você vai ser “o maior pescador do mundo”!

    - O maior pescador do mundo, pai? Não é coisa muito grande pra mim não?

    - Tá bem, Pipinho. Então, o maior pescador dessas paragens...

    - O que é paragens, pai?

    - Os lugares, filhos. Os lugares, a região onde vivemos.

    É esse fim de mundo aqui...

    - Aqui é o fim do mundo, pai?

    Seu Pipi, pra encerrar a saraivada de perguntas que, já sabia, iria longe pela tarde adentro, encerrou:

    - Olha, meu filho, depois te explico essas coisas... quando chegarmos em casa, combinado? Por enquanto, só pense nisso: filho de peixe outro peixe... É ou não é?

    - Peixe grande ou peixe pequeno, pai?

    O pai, já meio confuso, arrumando as tralhas:

    - Tá bem, Pipinho. Peixe grande! Repita comigo: filho de peixe grande, peixinho grande é... Ou melhor, peixe de filho grande... Ih, deixa pra lá! Você está me deixando maluco com tanta pergunta!

    E deu um beijo nele, afundando o boné do menino na cabeça.

    - Acho que você ainda vai ser escritor. Ou, pelo menos, um grande contador de lorotas!

    E antes que ele perguntasse o que era lorota, Seu Pipi emendou:

    - Conte para os seus amigos, mas só o que você viu, viu?

    No dia seguinte, quando os amigos perguntaram da pescaria, Pipinho não deu o braço a torcer: - Peixe eu não peguei não, tá?

    Mas fisguei a sandália de um gigante!

    - A sandália de um gigante???

    – todos indagaram assustados.

    - É... E pra tirar ela do rio tivemos que puxar com o jipe.

    - Cruz credo! E onde ela está?

    - Os pescadores da região pediram ela pra nós...

    - Pediram pra quê?

    - Para fazer uma jangada.

     

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    Antônio Barreto

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