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Janeiro/Março 2020
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Saúde

Acidente com moto pode trazer consequências irreversíveis

  • Em Passos, o número de acidentes com moto vem aumentando nos últimos cinco anos e, o pior, as consequências para as vítimas que saem feridas podem ser permanentes e ainda lhes afetar o aspecto psicológico.

    O ortopedista José Antônio de Oliveira adverte para as consequências dos acidentes de moto.
    O ortopedista José Antônio de Oliveira adverte para as consequências dos acidentes de moto.

    O serviço de reabilitação e fisioterapia da Santa Casa de Misericórdia de Passos tem um volume considerável de atendimento a pacientes que precisam de tratamento para lesões de diversas origens. São entre 150 e 200 pessoas submetidas a seções todo dia e, desse total, grande parte é de vítimas de acidentes com motocicletas. Segundo os profissionais da saúde, as consequências e sequelas de traumas como esses geralmente são graves e até irreversíveis.

    Para o médico José Antônio de Oliveira, do setor de ortopedia da Santa Casa de Passos, o problema para os motociclistas é justamente as características do veículo. “Eles têm que entender que numa batida eles nunca vão levar vantagem”, adverte, explicando que sempre recomenda para seus pacientes pararem nos cruzamentos, mesmo que a preferência seja deles. “O trauma por acidente com moto está virando uma epidemia e as vítimas são pessoas muito jovens”, disse.

    “Os acidentes com motos, na maioria das vezes, deixam sequelas graves, como, por exemplo, os traumatismos cranianos e lesões da medula espinhal”, explica a fisioterapeuta Cláudia Chelala. Quem sofre um acidente de moto, geralmente, sai com pelo menos um desses ferimentos: fraturas expostas, lesões nervosas, traumatismos cranianos e crânio-encefálicos, amputações e fraturas múltiplas.

    Os que sobrevivem têm que passar três, quatro meses, e até mais de ano, pelo tratamento de reabilitação. “Atualmente a nossa realidade quanto ao percentual de pacientes com lesões devido aos acidentes de moto é alto; em que o paciente é reabilitado, porém, apresenta sequela defi nitiva”, conta a fisioterapeuta.

    Diogo Rodrigues, 25 anos e o fi sioterapeuta Gustavo Gianini Botrel: O paciente teve uma perna amputada; além da fi sioterapia, ele tenta se recuperar emocionalmente.
    Diogo Rodrigues, 25 anos e o fisioterapeuta Gustavo Gianini Botrel: O paciente teve uma perna amputada; além da fisioterapia, ele tenta se recuperar emocionalmente.

    ABALO EMOCIONAL

    Na maioria das vezes a vítima passa a ter difi culdade para andar, fazer as atividades diárias, voltar ao trabalho e, em casos mais extremos, se torna paraplégica, tetraplégica ou tem algum membro amputado. Isso, no aspecto físico. Quanto ao fator psicológico, um acidente desse tipo pode afastar a vítima da motocicleta por muito tempo, além de afetar até sua autoestima.

    Esse é o caso do pedreiro industrial Diogo Rodrigues, 25 anos, de Itaú de Minas. Ele teve sua perna esquerda amputada 25 centímetros acima do joelho, por causa de uma batida frontal entre sua moto e um carro, quando se dirigia para uma festa de fim de ano numa chácara em Pratápolis. O amigo que estava com ele também ficou bastante ferido, mas Diogo foi o mais afetado: 40 dias em coma e mais de dois meses internado na UTI. Quando recobrou a consciência, a triste constatação: Já não tinha mais a perna. “Até hoje eu tenho um ‘auto-preconceito’ por causa da perna, de ser um cadeirante”, confessa, observando, porém, que vem se tratando também nesse sentido, nos últimos dois anos.

    O fisioterapeuta de Diogo, Gustavo Gianini Botrel trabalha com Cláudia Chelala e outros colegas no serviço de reabilitação da Santa Casa e explica que lidar com o trauma psicológico de um paciente é tão importante quanto tratar a lesão, para ajudá-lo a voltar a uma vida normal. “A Santa Casa não trata só da lesão, mas ajuda também na sociabilização do paciente, a ele aceitar a sua nova condição”, disse, [FOC OC O F O] - DEZ EZ DE D B EMB MB M EM E O RO R 201 01 20 2 1 explicando que no dia-a-dia da clínica, o relacionamento entre os pacientes e a confi ança nos profi ssionais são importantes para reverter esse fator mental causado pelo acidente e suas consequências físicas.

    A fisioterapeuta Cláudia Chelala diz que muitos pacientes ficam com sequela definitiva.
    A fisioterapeuta Cláudia Chelala diz que muitos pacientes ficam com sequela definitiva.

    A manicure Dilciane Fernandes, 25 anos, teve seu pé esquerdo ferido numa batida entre sua moto e um carro, quando voltava para o trabalho. Ela conta que estava em velocidade baixa, mas um veículo entrou num cruzamento sem obedecer a sinalização de parada obrigatória e sua moto acabou se chocando contra o automóvel. Ela foi lançada por cima do teto e caiu rolando na rua. Quando tentou se levantar, não conseguiu apoiar o pé esquerdo. Esse membro estava retorcido num ângulo de 90 graus. Dilciane teve a fíbula e os ligamentos do tornozelo rompidos, além de uma forte luxação, o que lhe causou intensas dores.

    Depois de duas cirurgias, a manicure - que na verdade é enfermeira- -padrão formada há pouco tempo – ainda sofreu as consequências psicológicas: insegurança sobre sua situação financeira, já que ficou vários meses sem trabalhar, autoestima abalada por não poder usar o tipo de calçado de que mais gosta e muitas noites sem dormir direito por pensar em diversos problemas ocasionados pelo acidente. “Tive crise de ansiedade, coração agitado, porque você acha que não vai sair dessa, não vai nunca mais andar direito. Trabalho como autônoma e fi quei um período sem dinheiro, por isso fiquei preocupada com as despesas”, recorda.

    Gustavo: O fisioterapeuta Gustavo Botrel ressalta a importância de se tratar o fator psicológico do paciente.
    Gustavo: O fisioterapeuta Gustavo Botrel ressalta a importância de se tratar o fator psicológico do paciente.

    ACIDENTES AUMENTAM

    Segundo um levantamento do setor de comunicação da 2ª Companhia do Corpo de Bombeiros de Passos, o número de acidentes de moto está aumentando na cidade, nos últimos cinco anos. A diferença entre 2007 e 2010 é de aproximadamente 31%. Em 2011, de acordo com o levantamento feito de 1º de janeiro até 15 de novembro, os bombeiros já registraram 457 ocorrências de acidentes envolvendo motocicletas. Com base na média mensal, a projeção para o final de 2011 é de 521 acidentes, ou seja, 40% a mais que cinco anos atrás. Por outro lado, as estatísticas de atendimento do serviço de resgate da companhia relacionadas ao trânsito vêm caindo desde o ano passado, o que chama a atenção do sargento Carlos Gonçalves de Paiva, responsável pelo levantamento dos dados. “Parece haver uma tendência de diminuição do número total de ocorrências no ano, mas o número de acidentes com motocicletas (em 2011) deve ser o maior dos últimos cinco anos”, analisou.

    A manicure Dilciane Fernandes, 25 anos, enfrentou duas cirurgias e teve problemas psicológicos.
    A manicure Dilciane Fernandes, 25 anos, enfrentou duas cirurgias e teve problemas psicológicos.

    De acordo com o ortopedista José Antônio de Oliveira, a ortopedia representa 40% do movimento do centro cirúrgico da Santa Casa – uma média mensal de 200 cirurgias - das quais pelo menos 30% são de acidentados com motocicletas. A gravidade das lesões, causadoras das sequelas, deve-se à intensidade das batidas, que ocorrem geralmente em alta velocidade. “E quanto maior a energia do impacto, maior é o número de fraturas e a gravidade é muito alta”, ressalta o médico. “Estando certo ou errado, o motociclista é o mais prejudicado”, disse o médico, observando que, após a cirurgia, a maioria é encaminhada para a reabilitação.

    “Felizmente, nós temos aqui uma estrutura muito grande. O serviço de resgate do Corpo de Bombeiros e uma instituição como a Santa Casa, com uma equipe multiprofi ssional a postos para as eventualidades, seja de que gravidade for”, comenta o Dr. José Antônio, falando do atendimento emergencial até o tratamento de reabilitação, feito posteriormente no hospital.

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