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Janeiro/Março 2020
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Saúde

As várias faces do LUTO

  • A cultura brasileira faz com que vejamos o luto apenas como o sentimento vivenciado após a morte de pessoas queridas, mas ele se refere também a outras formas de perdas.

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    A psicóloga Isaura von Zuben Lemos, especialista em psicologia hospitalar com formação em morte, luto e perdas.
    A psicóloga Isaura von Zuben Lemos, especialista em psicologia hospitalar com formação em morte, luto e perdas.

     

    “O luto é uma reação emocional a uma perda signifi cativa. É um processo natural e um modo de reç p g cuperação emocional face à perda”. Embora seja considerado um processo natural e universal, pois todas as pessoas passarão por essa experiência, as maneiras de vivenciá-lo dependerão da relação de apego vivida na primeira infância. O apego seguro, inseguro ou ambivalente (ansioso) da criança é o que vai determinar as reações no período em que se confrontar com o luto.

    Apesar de o luto ser considerado um período natural da vida, a maioria das pessoas não está preparada para vivê-lo. Na cultura ocidental, a população é preparada para ter e não para perder. O sim e o não dos pais durante o processo educacional também influenciarão nessa fase da vida. Com essa formação, a separação, a perda pode desencadear vários processos de dependência, inclusive pode levar a depressão.

    Por essas razões, que influenciam na saúde e qualidade de vida das pessoas, o entendimento do processo do luto, bem como a procura de ajuda profissional são essenciais para que as pessoas possam enfrentar a nova realidade e evitar o surgimento de doenças ou de dependências. Em Passos, Isaura von Zuben Lemos trabalha especificamente com o luto. “O momento da perda é um momento único. É nessa missão que consigo desempenhar bem a minha função”, disse a psicóloga. Isaura é natural de Campinas, mas trabalha em Passos há mais de 2 anos. É especialista em psicologia hospitalar com formação em morte, luto e perdas. Além dessa formação, acredita que a formação humanista que teve dos pais, muito contribui para a sua função e a necessidade que sente de ajudar pessoas.

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    “Há alguns anos, as manifestações eram mais aceitas, as pessoas vivenciavam o período do luto, o que é muito importante. Hoje a dor do outro incomoda”, ressaltou. Esse processo de encobrir a dor ou de não deixá-la se manifestar pode trazer sérios problemas para a vida pessoal. Ainda segundo Isaura, aquele que não vivencia o luto após a perda vai vivenciá- lo de qualquer forma, pois ele surge na vida das pessoas. “Os rituais são extremamente importantes para vivenciar a transformação. Entre esses rituais está a vivência do velório, que é o tempo do morto e das manifestações da dor coletiva”, esclareceu.

    Embora a dor e a saudade marquem a vida das pessoas quando perdem entes queridos, o tempo considerado pelos profissionais como sadio para se vivenciar o luto é de um ano. “É nesse período que a pessoa vai sentir a ausência nas datas mais significativas como os aniversários, Natal, Réveillon”, pontuou Isaura. Se esse período de luto persistir deve-se procurar um profissional.

    Para identificar o processo que cada pessoa vivencia em relação ao luto é preciso entender as relações humanas na primeira infância. Se a criança teve apego seguro, aquele sentimento que mesmo estando longe da mãe a criança se sente segura, ela terá facilidade para vivenciar a perda. Quando a criança viveu o apego inseguro ou o ambivalente enfrentarão mais difi culdades no processo do luto. A criança insegura é dependente da mãe e a ambivalente, chora muito e estando longe da mãe nunca sabe se ela vai voltar.

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    O LUTO

    Mas o luto está relacionado a várias formas de perdas e não somente a morte de um ente querido. A aposentadoria, a separação, a morte de um animal de estimação também podem desencadear um processo de luto muitas vezes difícil de ser diagnosticado.

    A perda de um objeto, a amputação de um membro do corpo, uma doença crônica são classifi cados como luto não reconhecido. Entre outras formas está o luto inibido, onde a pessoa não expressa a sua dor. No luto adiado a pessoa não se permite sofrer e no crônico, são mantidos os hábitos do falecido como o lugar à mesa, o quarto arrumado, a aliança no dedo para os casados. A terapia é um ponto de apoio nesse processo. “As pessoas precisam encontrar novos valores signifi cativos para viver. Nunca é tarde para ser feliz”, disse Isaura.

    AS FASES DO LUTO

    Perder alguém dói (muito), a sensação é de que nosso coração vai rasgar, vai parar e não vamos conseguir seguir em frente. Nesse momento estamos em choque e não é possível ver uma saída para tanto sofrimento e, por isso, é importante aceitar a dor e vivenciá-la (chorar, entristecer, gritar, etc) e não “esconder” ou “abafar” os sentimentos, pois em algum momento eles virão à tona.

    O choque é a primeira das 5 fases do luto, as demais são:

    Negação: É um mecanismo de defesa da pessoa que a leva a não acreditar ou a não querer acreditar no que aconteceu. Geralmente, a pessoa usa expressões do tipo “Eu não acredito que isto me tenha acontecido”, “não pode ser possível”. A impressão é que a pessoa morta vai entrar a qualquer instante pela porta.

    Culpa: Trata-se de um sentimento muito comum. As pessoas começam a pensar em tudo o que poderiam ter dito ou feito para impedir essa morte.

    Depressão: Estágio em que ocorrem mudanças súbitas de emoções (crises de choro, momentos depressivos, raiva, isolamento). Apesar de preocupante, é uma fase essencial para que a pessoa possa fazer uma análise mais franca sobre o ocorrido.

    Aceitação: É onde a pessoa começa a ter consciência do que aconteceu e se prepara para voltar as suas atividades.

    É importante dizer que a morte não traz apenas a perda de uma pessoa querida, mas de todo contexto em que ela vivia, como por exemplo: os afazeres da casa, pagamentos, passeios, etc.

    É comum encontrarmos senhoras viúvas que nunca foram a um supermercado ou que não sabem a senha do cartão do banco, pois isso era atribuição do marido falecido. Por isso, a morte sempre traz um recomeço onde é preciso aprender sem a ajuda da pessoa que se foi.

    Em muitos casos a dor da perda se agrava na existência de algum tipo de confl ito, onde não havia uma boa convivência. É uma situação bastante delicada, pois normalmente um simples “me desculpa” resolveria a situação.

    Apesar da caracterização de cada uma das fases, cada pessoa reage de uma maneira. A manifestação pode surgir seguindo cada uma das fases ou alternadamente.

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