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Janeiro/Março 2020
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Turismo

Os encantos do sertão

  • Há 10 anos ela viaja para o Nordeste do Brasil, sempre no mês de julho. Foi ao encontro de pessoas e se encantou pela região que desconhecia, pelas histórias de homens e de mulheres, crianças e jovens desconhecidos, que escrevem a história do Nordeste Brasileiro.

    A professora de Cultura e Cidadania e coordenadora pedagógica, a passense Marli Aparecida Ferreira Soares é também missionária. Há 10 anos participa de um projeto de formação solidária para transformação social no nordeste brasileiro através da Congregação Rogacionista, da qual é voluntária. Nesse projeto, voluntários de diversos estados partilham o seu conhecimento em comunidades, rurais ou urbanas, através de oficinas de formação para crianças, jovens e adultos.

    A sua primeira missão foi em 2001, na Bahia, no interior do Estado, onde conheceu a vida do sertanejo e seus costumes. Trabalhou durante três períodos de férias na mesma comunidade. Depois seguiu caminho, era momento de partilha com outras pessoas nos estados do Maranhão, Alagoas, Ceará (Comunidade ARCA) e Paraíba. Apaixonada pelo trabalho Marli afirma com toda convicção: “É lá que reabasp p teço as minhas energias”.

    Muito além dos cartões postais, do que é divulgado através da TV ou dos jornais, Marli conhece as belezas do nordeste vivenciando as situações reais nas comunidades por onde passa. Dessa forma conhece o nativo, o homem que sonha, que busca realizações. Conhece também as suas tradições, seus costumes, sua culinária, a natureza, a sua fé e o folclore. “Na minha primeira missão o que mais me marcou foi o uso da homeopatia. Naquela localidade, sem médico, a medicação era a única solução para o pedido de socorro de uma senhora. Apesar da minha descrença, pude conferir a atuação do remédio e o alívio da dor”, disse Marli.

    O retorno

    Em julho de 2011, Marli voltou à Paraíba. Passou por quatro estados em 16 dias visitando comunidades e promovendo a formação. “Eu trabalho com o que é necessário no momento segundo a orientação dos Rogacionistas. Se forem as crianças, trabalhamos com elas. O mesmo se dá com as mulheres, jovens e idosos”, afirmou. Através de palestras, dinâmicas e oficinas ensina ofício para as mulheres, estimula a formação das crianças e leva orientação para os jovens.

    A alimentação do nordestino é forte. No café da manhã encontramos tapioca, frutas da região, carne seca.

    Nesse contato direto com a comunidade, conhece os costumes regionais e a sua culinária sem interferências, na sua essência. Foi assim que acompanhou a produção do sarapatel, a caranguejada, a tapioca e muitas outras comidas típicas do nordeste brasileiro. O sarapatel é uma comida típica do Ceará, Pernambuco e Piauí. De origem portuguesa foi adaptado pelos colonizadores. É preparado com as vísceras do porco e sangue coalhado, acompanha arroz e farinha. Já a tapioca é um prato tipicamente brasileiro de origem indígena, feito a partir da mandioca. Em julho último, quando chegou à primeira comunidade, foi acolhida com um Baião de Dois, uma mistura de arroz e feijão, feito em um pequeno fogãozinho à lenha. “Uma preciosidade”, afirma Marli além de ressaltar o sabor do alimento.

    Durante o seu trabalho conhece a gastronomia do nordeste, mas também leva os sabores de Minas. “Já ensinei mulheres a fazer pão de queijo e pães caseiros, como forma de aumentarem a renda familiar”, ressaltou. Segundo Marli, pelas comunidades por onde passa, a simplicidade é a marca registrada, mas a acolhida é extraordinária.

    Um olhar de mineira no nordeste pode promover grandes transformações. Foi dessa maneira que fez com que a comunidade onde estava se encantasse pelo mandacaru, uma planta resistente a seca e que simboliza a garra do nordestino. Comum no nordeste é utilizado na alimentação de animais. O mesmo se deu com o babaçu e as suas mais de 200 especialidades entre alimento, medicação e uso na construção. “A alimentação do nordestino é forte. No café da manhã encontramos tapioca, frutas da região, carne seca. Atualmente, os produtos industriais começam a chegar às comunidades onde trabalho, o que poderá interferir nos costumes do sertanejo”, ressaltou.

    Entre os encantos geográficos do nordeste, Marli destaca a Praia do Jacaré, em João Pessoa. Nesse local, o músico paraibano Jurandir do Sax, to toda das as tar arde des, s, nav aveg ega pe pelo lo mar ar to- o cando o Bolero de Ravel enquanto o sol se põe. “Acompanhar o entardecer ao som do sax é fantástico”, disse a professora. Ela também enfatiza as belezas da foz do Rio São Francisco, na divisa dos Estados de Alagoas e Sergipe.

    Marli destaca a simplicidade dos lugares e das pessoas, na maioria das vezes marcadas pela necessidade de enfrentar o sertão, a falta de comunicação, a seca. Fatos tão cantados em verso e prosa, mas que ainda é realidade no Brasil. “Esse meu trabalho é um grande momento de oração transformadora, de verdadeira espiritualidade vivida na realidade do ser humano em suas necessidades e potencialidades. O nordestino é um exemplo de brasilidade na resistência, na vivencia familiar, na luta por uma pátria mais justa, com a dignidade garantida a todos. Tenho uma gratidão eterna a meus amigos da comunidade Rogacionista, representados em Passos pelos Padres do Educandário Senhor Bom Jesus dos Passos. Sugiro a todos que façam essa experiência”, concluiu.

    Denise Bueno

    Em Ilhéus, na praça do Bar do Vesúvio junto à estátua de Jorge Amado.
    Junto ao patrimônio cultural do nordeste, o jegue.
    Marli na praia Ponto dos Seixas, o ponto mais ao leste do Brasil, em João Pessoa.
    Jurandir do Sax durante uma de suas apresentações.
    Durante encontro com membros da comunidade...
    ... e conversando com as crianças.
    Marli em Campina Grande, Paraíba, junto às estátuas de Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga.

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