Última Edição
Janeiro/Março 2020
Janeiro/Março 2020

Saúde

ESCLEROSE MÚLTIPLA

  • O neurocirurgião Roberto Grintaci Vasconcellos.
    O neurocirurgião Roberto Grintaci Vasconcellos.

    Doença ainda sem cura, de causa ignorada pela ciência e que acomete o sistema nervoso central, a esclerose múltipla (EM) tem outro problema: pode aparecer aos poucos, através de sintomas leves, e progredir para quadros graves, como a paralisia de uma parte do corpo, perda da coordenação motora e do controle dos sistemas urinário e intestinal. Embora os cientistas ainda estejam tentando descobrir o que leva uma pessoa sofrer de “EM”, e desenvolver um medicamento para curá-la, por enquanto, pelo menos, é possível tratá-la.

    Mas isso só ocorre após um diagnóstico correto, que também não é nada fácil, porque outras patologias do sistema nervoso apresentam alguns sintomas da esclerose múltipla. E, justamente por serem leves, os sinais iniciais não são vistos com tanta importância pelo paciente e sua família, que acabam não indo ao médico. Uma visão dupla, um cansaço, a fala arrastada, dormência dos membros (pés e mãos) são sintomas que podem aparecer separadamente, no decorrer de meses e, somente quando acontecem juntos, é que o paciente ou seu familiar procura orientação médica.

    A história de Vanessa Aparecida Silva Melo, hoje com 33 anos de idade, confi rma o pouco que a medicina sabe sobre a doença, conforme descrito acima. No dia 31 de agosto de 1991, quando ela tinha 13 anos de idade, apareceram os primeiros sinais da EM. Em pouco tempo, a adolescente perdeu dez quilos e, até então com uma vida bastante ativa, já não tinha mais vontade de ir para a escola. “Eu sentia muito desânimo, uma dormência no rosto que ia descendo pelo corpo todo”, recorda.

    Sua mãe, a pedagoga aposentada Maria Aparecida da Silva Melo, tomou a primeira providência. Levou Vanessa ao pediatra que, numa primeira avaliação, não viu nada demais no quadro apresentado pela menina e disse para a mãe dormir em paz. Como o problema persistiu, com a fi lha tendo mudado o comportamento na escola, Maria Aparecida a levou a um neurologista, que pediu exames de rotina e foi aí que surgiu a suspeita de que Vanessa estava tendo algum problema no sistema nervoso central.

    Somente após uma ressonância magnética em Ribeirão Preto (SP) e com a avaliação dos sintomas que a adolescente apresentava é que o médico passou a encarar a doença como um caso de esclerose múltipla. Até esse dia, Vanessa teve um novo surto, bem mais grave que a dormência e os sinais anteriores. “Nós achamos que ela tinha morrido”, conta a mãe, explicando que a menina ficou paralisada e, durante oito meses, não falou, não andou, perdeu a visão e o movimento dos braços e pernas.

    Católicos e devotos de Nossa Senhora Aparecida, Maria Aparecida e seu marido, José Daniel de Melo, empresário, acreditam que a fé salvou a filha e, desde então, não medem esforços para tratá-la, dando-lhe a melhor qualidade de vida possível. “Quando eu a vi daquele jeito, fui para uma roça aqui perto e ajoelhei debaixo de um pé de café e pedi a Deus para me dar forças”, disse. Sua mulher conta que no dia 12 de outubro de 1991, Dia da Padroeira do Brasil, os amigos e inúmeras pessoas de Passos fizeram uma corrente de orações em nome de Vanessa e, com a fé da família e de todos que participaram, conseguiram salvá-la. “Foram tantos familiares e amigos que nos ajudaram, como o Dr. Jobel (Morais Caetano), que ficava a noite inteira, na cabeceira da cama dela, e o Taquinho (empresário José Eustáquio do Nascimento). Muitos ficavam para dormir, em apoio a nós, como minhas irmãs Marli e Luci e meu cunhado Cássio, os compadres Freitas e Lourdes, além de várias outras pessoas e das professoras do Colégio Imaculada Conceição, que nos deu total apoio com orações e companhia nas horas mais difíceis”, recorda Maria Aparecida.

    Com relação às irmãs da jovem, Maria Aparecida lembra que a do meio, Sabrina, na época com 11 anos, tomou as rédeas dando apoio e ajudando a cuidar de Vanessa. “E era ela que sabia onde estava tudo em casa, pois nós não tínhamos cabeça, tanto que, um dia cheguei a esquecer de buscar a Thamara (irmã mais nova) na escola, na época com seis anos. Devido a sua pouca idade, ela não percebia muito a gravidade das coisas e nos exigia cada vez mais atenção”, disse.

    Vanessa (à dir.) procura levar uma vida normal. Na foto com seus pais José Daniel Melo e Cida, irmãs Sabrina e Thamara.
    Vanessa (à dir.) procura levar uma vida normal. Na foto com seus pais José Daniel Melo e Cida, irmãs Sabrina e Thamara.

    Em 1995, a adolescente teve o terceiro surto, mas se recuperou rápido. Um novo problema de saúde aconteceu cerca de um ano atrás, mas não teve nada a ver com sistema nervoso. A vesícula da jovem inflamou e ela teve que ser internada para retirá-la. A visão embaçada no olho direito, uma dificuldade motora e tremores nas mãos são as sequelas da EM de Vanessa.

    Embora limitada e sem ter concluído os estudos, a jovem tem uma vida ativa e ainda pratica uma das paixões de infância, a dança. Ela não perde um baile com seus pais e José Daniel não deixa de dançar com ela. Antes da doença, ela fazia aula de jazz (um tipo de dança), curso de modelo fotográfico e outras atividades, além da escola.

    A religiosidade, as amizades e a persistência de Maria Aparecida e José Daniel foram importantes para que a jovem fosse tratada e não sofresse os danos mais graves da doença. Pai e mãe não se contentaram com os remédios disponíveis pela medicina convencional e passaram a pesquisar a doença, encontrando informações importantes que os ajudaram a entender o problema e buscar alternativas de tratamento.

    A bainha de mielina pode ser identificada como uma capa que envolve os nossos condutores nervosos que levam impulsos do corpo ao cérebro e vice-versa. Pelo comprometimento dessa capa isolantem, os impulsos se dispersam e o indivíduo deixa de ter controle dos comandos do cérebro. No casa da esclerose múltipla, o organismo cria anticorpos contra a bainha de mielina e passa a não reconhecê-la.
    A bainha de mielina pode ser identificada como uma capa que envolve os nossos condutores nervosos que levam impulsos do corpo ao cérebro e vice-versa. Pelo comprometimento dessa capa isolantem, os impulsos se dispersam e o indivíduo deixa de ter controle dos comandos do cérebro. No casa da esclerose múltipla, o organismo cria anticorpos contra a bainha de mielina e passa a não reconhecê-la.

     

    Ansiosa, a família aguarda a conclusão de uma pesquisa de medicamento que está sendo feita em Israel e há 15 anos utilizam uma vacina criada por um médico alemão (Telmo Waske), à base de sangue do próprio paciente, que vem ajudando Vanessa. “Depois que começou a tomar essa vacina é que ela melhorou”, afirma Maria Aparecida.

    O casal também se associou a uma entidade, a Abem (Associação Brasileira de Esclerose Múltipla), cuja missão é divulgar e esclarecer a esclerose múltipla e suas terapias, para assistir e orientar o portador e seus familiares. Isso também tem ajudado a família a ter esperanças.

    “Apesar da doença, os problemas enfrentados e as sequelas, nossa família consegue levar uma vida normal acreditando cada vez mais no Deus Misericordioso e intercessão de nossa Mãe Maria Santíssima”, enfatiza Maria Aparecida.

    Enio Modesto

    NEUROCIRURGIÃO* ESCLARECE ALGUMAS DÚVIDAS SOBRE A ESCLEROSE MÚLTIPLA

    PRIMEIROS SINTOMAS De um modo geral, a esclerose múltipla (EM) é uma doença que manifesta-se de forma progressiva, às vezes insidiosa. Todavia, não é impossível que a EM seja rapidamente progressiva em alguns casos.

    DIAGNÓSTICO O diagnóstico inicial da doença é difícil devido à quantidade de sinais e sintomas que não são específicos na EM, tais como fadiga, vertigens, visão embaçada, depressão, disfunção sexual, disfunção cognitiva, etc. O diagnóstico é mais facilmente elucidado por quem tem experiência na área neurológica.

    AVANÇOS DA MEDICINA Há 20 anos, a EM era considerada uma doença incurável e foi nessa época que começaram a aparecer os primeiros trabalhos que indicavam que o Interferon Beta 1A e o Acetato de Glatiramer estavam com resultados promissores para tratamento de pacientes com EM na fase remitente /recorrente. Hoje, com a disponibilidade do exame de ressonância magnética cerebral ficou mais fácil confi rmar o diagnóstico da doença.

    ORIENTAÇÃO MÉDICA Se você apresentar um dos sintomas deve procurar o profi ssional da área adequada. Por exemplo: disfunção sexual, um urologista, diminuição da visão, um oftalmologista. Caso apresente mais de dois sintomas destes pode procurar um neurologista diretamente.

    TIPOS DE EM A EM é dividida em três formas de evolução: a forma remitente/ recorrente - em 30% dos casos - é a mais benigna; a forma progressiva primária (20 a 30%) é a mais grave, e a progressiva secundária, que é a transformação da forma remitente/ recorrente na progressiva (40 a 60%). A taxa de mortalidade é variável, depende de vários fatores e, de um modo geral sem tratamento, a expectativa de vida era sete anos.

    RECURSOS O Estado de Minas Gerais, através da Delegacia Regional de Saúde, fornece todo o tratamento, desde que sejam cumpridos todos os trâmites burocráticos exigidos.

    SEQUELAS DA DOENÇA Na fase remitente/recorrente os sintomas podem regredir até totalmente ou deixar sequelas leves. Na progressiva não tem melhora.

    MENSAGEM “Não deixe que um mero diagnóstico, por pior que seja, tire sua vontade de viver. Seja amigo das suas doenças, cuide bem delas, caso contrário elas podem te matar. Nós viemos ao mundo para viver, morrer será o nosso último ato, portanto vivam em paz e intensamente.”

    © 2019 Foco Magazine. Todos os direitos resevados.