Última Edição
Janeiro/Março 2020
Janeiro/Março 2020

Saúde

TRANSPLANTE

  • Doação de órgãos ainda é desafio no Brasil

    O nefrologista Giovanni Henrique Verçosa coordenador do CIHDOTT - “O assunto já não é mais tratado com tanta estranheza pelas famílias de pacientes em morte encefálica e que são potenciais doadores.”
    O nefrologista Giovanni Henrique Verçosa coordenador do CIHDOTT - “O assunto já não é mais tratado com tanta estranheza pelas famílias de pacientes em morte encefálica e que são potenciais doadores.”

    Apesar de aumentar ano a ano, o número de transplantes de órgãos no país está muito abaixo da referência mundial, a Espanha; embora esteja numa região que ocupa a última posição no estado, Passos se destaca na captação.

    Até agosto deste ano, das sete famílias procuradas pela Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplanp p tes (CIHDOTT) da Santa Casa de Misericórdia de Passos, quatro autorizaram a doação de múltiplos órgãos. Os dados obtidos até o início do mês de agosto mantêm a cidade em primeiro lugar, junto com Pouso Alegre, nas estatísticas de captação de órgãos para transplantes no Sul de Minas Gerais. Apesar disso, ainda não ocupamos lugar de destaque em relação ao restante do estado. Pelo contrário, ocupamos a última posição, inclusive menos destacada que regiões com menor índice de desenvolvimento sócio-econômico e cultural.

    Setembro é o mês da Campanha Nacional de Incentivo à Doação de Órgãos, do Ministério da Saúde. Criada justamente para ampliar a conscientização das pessoas sobre o que representa o ato de doação e autorizar a retirada dos órgãos em pacientes com morte encefálica, trazendo a chance de sobrevivência para pacientes com doença terminal, como no caso de coração, ou melhora da qualidade de vida, nos casos dos transplantes de córneas e rins, por exemplo.

    Em nível nacional, os números mostram que o brasileiro vem realmente se preocupando com o próximo em termos de doação de órgãos para transplantes. Em 2003, ano em que a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) coç g p p q meçou a fazer os registros dos óbitos de pacientes em morte encefálica, foram efetuados apenas cinco transplantes para cada milhão de pessoas, totalizando 893 procedimentos. Com o avanço anual das doações efetivadas, a meta nacional é aumentar esse número em 50%, passando de 10 para 15 doações por milhão.

    Trabalhando com captação há praticamente 20 anos em Passos, o nefrologista Giovanni Henrique Verçosa percebe que o assunto já não é mais tratado com tanta estranheza pelas famílias de pacientes em morte encefálica e que são potenciais doadores. No entanto, aceitar e autorizar a retirada dos órgãos, como coração, pulmões, fígado, rins e córneas do parente continuam sendo um ato difícil para muita gente. “Mesmo se tratando de um momento de dor e sofrimento para as famílias, notamos que em Passos, houve melhora do entendimento e significado deste ato. As pessoas estão mais conscientes e abertas à participação no processo de doação”, diz.

    Doação depende da família

    Atualmente a doação de órgãos é por consentimento familiar, o que significa que o paciente faz sua opção em vida, comunicada aos parentes. Caso não seja informada sua opção, a decisão caberá à família no momento da confi rmação da morte encefálica, conforme regulamentado pela Lei 10.211, de 23 de março de 2001, que alterou uma norma anterior sobre o transplante de órgãos.

    Há ainda a opção por doação inter - vivos, para órgãos como rins, por exemplo. Nesse caso, o procedimento é permitido para parentes com até o quarto grau de consanguinidade: pais, avós, filhos, irmãos, tios e o próprio cônjuge (marido ou mulher). Doadores não aparentados devem conseguir autorização judicial e da central de transplantes regional para o procedimento.

    .

    Por último, existe ainda a doação do chamado “coração-parado”, podendo a família, quando informada após a morte do paciente, realizar num período de até seis horas a doação de córneas e outros tecidos (tendões, osso etc). “Em Passos, estamos nos organizando para tornar ativo este último tipo de doação de maneira rotineira. Visamos acabar em breve, com a lista de espera de córneas”, informa Dr. Giovanni Verçosa. 

    Já o transplante de coração, pulmão, fígado, pâncreas, dentre outros órgãos, e tecidos, é feito somente quando há morte encefálica. São basicamente aqueles pacientes que sofreram algum tipo de lesão no cérebro, como traumatismo crânio-encefálico, vítimas de acidentes automobilísticos, quedas ou ferimentos por arma de fogo, acidente vascular cerebral, por sangramento ou isquemia e alguns tipos de tumor.

    Não podem ser doadores pacientes portadores de doenças infectocontagiosas graves, como tuberculose ou Aids, ou que comprometam a viabilidade dos órgãos. A idade avançada não é encarada mais como uma contra-indicação absoluta, devendo, no entanto, aqueles órgãos provenientes de pacientes mais idosos serem transplantados em receptores da mesma faixa etária.

    Fila de transplantes é grande

    Ao longo do tempo notou-se uma grande desproporção entre o crescimento da fila de pessoas que necessitam de um transplante e de potenciais doadores, o que motivou o Ministério da Saúde a criar as CIHDOTT’s. Atualmente tornou-se uma obrigatoriedade que todos os hospitais de médio e grande porte criem suas respectivas comissões, para reduzir a diferença entre a fila de transplantes e as doações efetivadas.

    De acordo com Giovanni Verçosa, em 2009, a fila tinha 40.110 pacientes e o total de órgãos captados no período foi de 4.950, ou seja, pouco mais de 12%.

    Alguns mitos ajudam o Brasil a ficar bem atrás entre os países que realizam o procedimento e têm melhores índices na relação entre captação e transplantes efetuados. Na Espanha, que é referência mundial, para cada milhão de pessoas, há em média 35 doações efetivadas. No Brasil, a média foi de 8,7 em 2009, passando para 9,9 em 2010 e, até o primeiro semestre deste ano, subiu para 10,3 por milhão. Um crescimento, embora ainda longe dos espanhóis.

    O coordenador da CIHDOTT acredita que se o Brasil resolver o problema da captação de órgãos irá conseguir se equiparar a Espanha e, assim, diminuirá a fila. Essa é uma das metas das comissões, mas que esbarra num obstáculo ainda muito difícil de ser superado: a negativa da família ao pedido de autorização para a retirada dos órgãos. “O que influencia mais é a angústia da família, que deseja ter o corpo do falecido junto de si, para assim fechar o processo, com o enterro e a despedida. Muitas vezes, a família não consegue lidar bem com isso, o que é natural”, disse.

    Membros integrantes da Comissão Intra-hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT). Da esq. para dir.: Enf. Gisele, Enf. Mateus, Enf. Suzi e Dr. Giovanni Verçosa. Sentadas: Marina - Assistente Social e Pamella - Psicóloga, (da equipe não está na foto apenas a Enf. Cecília).
    Membros integrantes da Comissão Intra-hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT). Da esq. para dir.: Enf. Gisele, Enf. Mateus, Enf. Suzi e Dr. Giovanni Verçosa. Sentadas: Marina - Assistente Social e Pamella - Psicóloga, (da equipe não está na foto apenas a Enf. Cecília).

    COMISSÃO FAZ ANIVERSÁRIO 

    A Comissão Intra-hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT) da Santa Casa de Misericórdia de Passos completou um ano de criação no último dia 8 de agosto. Apesar do trabalho ser realizado há alguns anos junto às famílias, a efetivação da comissão ajuda a Santa Casa a fazer o procedimento agora de maneira mais organizada. Segundo o coordenador da CIHDOTT, o médico nefrologista Giovanni Henrique Verçosa, a função do grupo é abordar e dar suporte aos familiares num momento de muita emoção e dor, mostrando-lhes o direito e possibilidade da doação de órgãos, que poderão salvar outras vidas com um gesto único de amor e solidariedade. “A doação tem importante função social e representa um importante ato de altruísmo para com aqueles que dela necessitam”, disse.

    Essa maior compreensão sobre o significado deste ato de solidariedade é resultado do trabalho persistente da comissão intra-hospitalar, que é formada por sete profissionais da Santa Casa sob a coordenação de Giovanni Verçosa, composta por quatro enfermeiros (Cecília, Gisele, Mateus e Suzi), um médico (Dr. Giovanni), uma psicóloga (Pamella Lemos) e uma assistente social (Marina Queiroz).

    Segundo uma das integrantes do grupo, a assistente social Marina Queiroz, a comissão inicia suas atividades depois de constatada a morte encefálica do paciente, ou seja, quando o cérebro para de exercer suas funções, de forma irreversível, não tendo a pessoa qualquer chance de se recuperar. A partir daí, a comissão passa a oferecer suporte à família do potencial doador, explicando o quadro irreversível, a possibilidade de transplantes e consequentemente solicitando a autorização familiar para a doação.

    Caso a retirada dos órgãos seja autorizada pela família, a comissão organiza a documentação para firmar o consentimento e encaminha os exames para a Central de Notifi cação, Captação e Distribuição de Órgãos (CNCDO) de Pouso Alegre, que é um órgão da MG-Transplantes responsável pela retirada, transporte e implante dos órgãos. Todos estes procedimentos são realizados num período de 24 a 36 horas, sendo a família informada com antecedência deste prazo.

    Apoio à família do doador

    Durante todo esse processo a CIHDOTT acompanha ainda a manutenção hemodinâmica, a realização dos exames laboratoriais que visam manter os órgãos em boas condições para transplante, bem como afastar doenças infectocontagiosas do doador. A comissão também continua atuando através da assistência à família no decorrer do processo de liberação do corpo, prestando suporte psicológico e social.

    De acordo com Giovanni Verçosa, esse trabalho tem ainda função educativa, levando informação e conhecimento sobre o processo de doação e morte encefálica ao maior número de pessoas, seja através de campanhas, divulgação em jornais, TV’s, ou mesmo palestras em escolas, faculdades e empresas. “Nós aqui trabalhamos sempre que uma doação é efetivada, divulgando o fato à população”, explica o médico.

    “Percebemos que quando a família compreende o que é morte encefálica, ou já ouviu falar em doação de órgãos, ou até mesmo quando o próprio paciente quando em vida era favorável à doação de órgãos, isso facilita a abordagem familiar, respeitando a vontade do paciente”, completa Marina Queiroz..

    Com a atual estrutura do hospital, Passos já realizou a retirada de dois rins, duas córneas, fígado e pâncreas. Os outros órgãos, como coração e pulmão, ainda não são retirados na unidade, devido ao curto espaço de tempo disponível entre a retirada e o implante no receptor, cerca de quatro horas. “Estamos, no entanto, trabalhando para que este tipo de doação possa em breve ser realizada aqui”, disse a assistente social, acrescentando que o diagnóstico confirmado da morte encefálica do paciente é um direito da família.

    OS MITOS MAIS PREJUDICIAIS À DOAÇÃO DE ÓRGÃOS

    1 - Se os médicos do setor de emergência souberem que você é um doador, não vão se esforçar para salvá-lo.

    Se você está doente ou ferido e foi admitido no hospital, a prioridade número um é salvar a sua vida. A doação de órgãos somente será considerada após sua morte e após o consentimento de sua família.

    2 Quando você está esperando um transplante, sua condição financeira ou seu status é tão importante quanto sua condição médica.

    Quando você está na lista de espera por uma doação de órgão, o que realmente conta é a gravidade de sua doença, tempo de espera, tipo de sangue e outras informações médicas importantes.

    3 - Necessidade de qualquer documento ou registro expressando minha vontade de ser doador.

    Não há necessidade de qualquer documento ou registro, apenas informe sua família sobre sua vontade de ser doador.

    4 - Somente corações, fígados e rins podem ser transplantados.

    Órgãos necessários incluem coração, rins, pâncreas, pulmões, fígado e intestinos. Tecidos que podem ser doados incluem: córneas, pele, ossos, valvas cardíacas e tendões.

    5 - Seu histórico médico acusa que seus órgãos ou tecidos estão impossibilitados para a doação.

    Na ocasião da morte, os profissionais médicos especializados farão uma revisão de seu histórico médico para determinar se você pode ou não ser um doador. Com os recentes avanços na área de transplantes, muito mais pessoas podem ser doadoras.

    6 - Você está muito velho para ser um doador.

    Pessoas de todas as idades e históricos médicos podem ser consideradas potenciais doadoras. Sua condição médica no momento da morte determinará quais órgãos e tecidos poderão ser doados.

    7 - A doação dos órgãos desfigura o corpo e altera sua aparência na urna funerária.

    Os órgãos doados são removidos cirurgicamente, numa operação de rotina, similar a uma cirurgia de vesícula biliar ou remoção de apêndice. Você poderá até ter sua urna funeral aberta.

    8 - Sua religião proíbe a doação de órgãos.

    Todas as organizações religiosas aprovam a doação de órgãos e tecidos e a consideram um ato de caridade.

    Há um verdadeiro perigo de alguém poder ser drogado e quando acordar, encontrar-se sem um ou ambos os rins, removidos para ser utilizado no mercado negro dos transplantes? 

    Essa história tem sido largamente veiculada pela Internet. Não há absolutamente qualquer evidência de tal atividade ter ocorrido. Mesmo soando como verdadeira, essa história não se baseia na realidade dos transplantes de órgãos.

     

    .

     

    Enio Modesto

    © 2019 Foco Magazine. Todos os direitos resevados.