Última Edição
Janeiro/Março 2020
Janeiro/Março 2020

Literatura e Cultura

Aula de Beijologia

  • Beijo também é ciência. Precisa de aprendizado. Aliás, hoje em dia, o que é que não necessita de aprendizado, diploma, especialização?

    Beijo também é ciência. Precisa de aprendizado. Aliás, hoje em dia, o que é que não necessita de aprendizado, diploma, especialização?

    Antigamente é que havia um negócio chamado instinto. Instintivamente a gente – os neófi tos apaixonados – saía por aí tentando aprender, pelo instinto, alguma coisa da vida e do mundo que nos cercava. A palavra sexo, por exemplo, era um mistério insondável. Pai e mãe não tocavam no assunto. Destarte, restava perguntar alguma coisa aos amigos mais experientes: “Como é que a gente se aproxima de uma menina? Como é que a gente se declara a ela? Como é que a gente pega na mão dela? E o beijo? Como? Quando? Onde?”

    Quase ninguém sabia responder. Aí, vinha o instinto. Era o instinto que, de repente, telefonava ou mandava um torpedo, um e-mail pro cérebro e pro coração da gente... E fosse o que Deus quisesse. E como era boa a descoberta!

    Hoje, como já disse, se aprende isso na maior facilidade: inclusive como beijar pela primeira vez. Tanto que dia desses, num corredor de escola – onde eu acabara de proferir uma chatíssima palestra sobre “O Fim do Mundo”... ops! – ouvi esse papo entre duas amiguinhas. Um verdadeiro Manual de Beijologia. E agora acho que, sinceramente, é por aí que o mundo começa... Vejam:

    - Nunca beije sem vontade, Lu. Primeiro, você tem que estar muuiiiinto a fi m, entendeu?

    - Arrãaaa...

    - Sem essa de querer saber quem beija e quem é beijado. O que importa é a vontade, o clima, sacou? Depois do beijo, quem vai lembrar?

    - Ãrrãaaa...

    - Se o carinha estiver muito tímido, deixa a coisa rolar, sem forçar a barra, certo? Tentem os beijinhos no rosto, na mão, na ponta do nariz, um roçar de lábios... Não precisa começar logo com um “de língua”, tá?

    - Hummm... sinistro.

    - Não exagera no batom. A Rê já me contou: todo carinha detesta sair maquiado de uma sessão de beijos.

    - Ocá...

    Aí ela pegou um espelhinho na mochila, passou batom e perguntou:

    - Assim tá bom?

    - Tá ótimo. No ponto.

    Beijou o espelho.

    - Ai, meus sais! Deixa pra treinar com o Renatinho, Lu!

    - Tá bom. Que mais?

    - Não fi que “geladeira” não, viu? O carinha tá a fim de beijar é você e não uma boneca de pano.

    - Ocá.

    - Não fale demais. Pode cortar o clima, sacou?

    - Saquei...

    - Confi ra se o seu hálito tá legal. Mas sem encucar...

    - Maneiro. Deixa comigo.

    - Feche os olhos. Do jeitinho que a gente vê no cinema. O resto, minha filha, é ir flutuando na tempestade. Depois você me conta...

    - E se não der certo, Lau?

    - Ora, ninguém nasce sabendo mesmo. E o beijo é o nosso primeiro contato pra valer com os carinhas, né? Eles também não nascem sabendo. Vai ver, o Renatinho é mestre.

    - E se eu quebrar a cara?

    - Fazer o quê, Lu? Crescer não é fácil, minha filha. E a vida não tem certifi cado de garantia. Pior é ficar longe das grandes emoções que ela oferece, não acha? Se você beijar a lona com o Rena, levanta e parte pra outra, pro segundo round, sacou? Sem querer, embevecido com a aula, eu disse:

    - Saquei...

    As duas meninas me olharam de alto a baixo, soltaram risinhos e foram embora corredor afora. Com toda certeza, pensando: “Esse coroa aí deve ser analfabeto em Beijologia...”

     

    Antonio Barreto, escritor, é de Passos.
    e-mail: [email protected]

    Esse texto deu origem a um dos capítulos do romance Balada do primeiro amor (Editora FTD, São Paulo).

    © 2019 Foco Magazine. Todos os direitos resevados.