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Janeiro/Março 2020
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Saúde

Dengue: Dez minutos fatais para o mosquito

  • Nova estratégia de mobilização social adotada em Passos vem sendo decisiva  no combate ao mosquito que colocava  a cidade em risco de epidemia de dengue.

     

    Com um índice de infestação do Aedes aegypti, o mosquito da dengue, em 3%, que colocava Passos em situação de epidemia no início do ano, a cidade passou a respirar aliviada com os resultados de outubro mostrando que os focos caíram para menos de 1%. Essa porcentagem foi obtida por meio de uma nova estratégia de mobilização social, que vem educando as pessoas a tirarem dez minutos por semana para inspecionar a residência e eliminar os focos localizados do inseto. 

     

    Gabriel Patrick de Jesus Abreu (com o folder) e o diretor do Departamento de Saúde Coletiva, da Secretaria de Saúde de Passos, Michael Silveira Reis.
    Gabriel Patrick de Jesus Abreu (com o folder) e o diretor do Departamento de Saúde Coletiva, da Secretaria de Saúde de Passos, Michael Silveira Reis.

    Segundo o diretor do Departamento de Saúde Coletiva, da Secretaria de Saúde de Passos, Michael Silveira Reis, os “10 minutos contra a dengue” quebram o ciclo reprodutivo do mosquito, conforme demonstram estudos feitos em Cingapura, onde o trabalho foi desenvolvido. “O projeto de pesquisa foi absorvido no Rio de Janeiro, foi um sucesso, e nós o trouxemos para cá, onde tem sido um sucesso também, porque os moradores gostaram e aderiram”, disse.

    A ideia dos “10 minutos contra a dengue” foi multiplicada nas escolas de Passos, através de parceria da Saúde Coletiva com a Secretaria de Educação, Cultura, Esporte e Lazer (Secel) e Superintendência Regional de Ensino (SRE). Os técnicos da Saúde Coletiva que atuam na Vigilância Ambiental e no Núcleo de Controle de Zoonoses orientaram o corpo pedagógico das escolas, os bibliotecários e os diretores para que as ações chegassem aos alunos, que seriam os transmissores do projeto junto à população.
     
    "Os bibliotecários foram os responsáveis em desenvolver as atividades com o tema da dengue nas disciplinas de história, geografia, matemática e ciências. Os alunos levariam a ideia para casa e fariam as atividades na própria escola', explica Gabriel Patrick de Jesus Abreu.
    Equipe da vigilância ambiental após trabalho com alunos na Escola Municipal Amélia Jabace.
    Equipe da vigilância ambiental após trabalho com alunos na Escola Municipal Amélia Jabace.

     

     
    Michael aproveita evento na praça para falar sobre a dengue.
    Michael aproveita evento na praça para falar sobre a dengue.

    Com esse trabalho educativo, a dengue serviu para os alunos aprenderem geografia, em que foram destacadas as áreas endêmicas do mosquito. Em matemática, os alunos calculavam o índice de infestação e notificações de suspeitas de infecções. Já os professores de ciências foram orientados a falarem de reciclagem de materiais que seriam descartados, da importância da sustentabilidade ambiental e do acondicionamento e descarte correto do lixo para evitar o mosquito e também outras contaminações.

    "Essa conscientização dos estudantes terminou com uma megapasseata ao redor das escolas, com fanfarra e carro de som com uma paródia de música alusiva aos 10 minutos contra a dengue", conta o diretor. “Isso aí mobiliza os moradores das áreas das próprias escolas, que passaram a adotar esses "10 minutos contra a dengue”, fazendo a inspeção semanal em suas casas.”
     
    Alunos durante passeata de conscientização contra a dengue.
    Alunos durante passeata de conscientização contra a dengue.

     

    Alunos durante passeata no entorno da escola.
    Alunos durante passeata no entorno da escola.

     

     
    A estratégia de multiplicar o projeto foi levada também às igrejas católicas e evangélicas, com padres e pastores apresentando, ao final das missas e cultos, a “Palavra da dengue”, que contém o relatório mensal epidemiológico, e distribuindo aos fiéis os folders e cartazes com orientações para a eliminação do Aedes.
     
    O trabalho educacional é o carrochefe. Informar e sensibilizar a população sobre o perigo da proliferação do mosquito é um importante auxílio no combate, junto com as visitas domiciliares dos agentes”, explica Gabriel Patrick, acrescentando que o risco de epidemia do primeiro semestre não irá mais ocorrer enquanto a população colaborar. “Era um estado de alerta para o alto risco de epidemia, mas o trabalho auxiliou a conscientizar o cidadão a abrir a porta para o agente”, observa Michael Reis.
     
    Com os “10 minutos contra a dengue” e a participação das comunidades escolar e religiosa, também caiu o índice de imóveis fechados ou cujos moradores recusavam a visita dos agentes da dengue. A média de imóveis fechados ou com recusa do morador em abrir a porta para a inspeção ficava em torno de 20%, hoje, esse número baixou para a casa de 15%.
     
    DENGUE INSPIRA VÁRIOS PROJETOS EM ESCOLA
     
    A Escola Estadual Dr. Tancredo de Almeida Neves, da Cohab II (Bairro Penha), é uma das instituições de ensino que aderiram à parceria proposta pelo Departamento de Saúde Coletiva da Secretaria de Saúde de Passos para disseminar a campanha dos “10 minutos contra a dengue”.  A escola estimulou os professores a desenvolverem projetos de ação contra o mosquito transmissor da doença para, no final, serem apresentados ao público em exposições de trabalhos, palestras e apresentações artísticas.
     
    Um desses projetos é o “Chispa Dengue”, criado por alunos da 8ª série, da professora Ana Paula Faleiros Gonçalves Bernardes. A ideia, que contagiou educativamente toda a escola, também repercutiu fora de Passos, sendo selecionada para uma feira da prefeitura de Santa Rita do Sapucaí, que despertou interesse em implantar projeto semelhante na cidade.
     
    O “Chispa Dengue” foi dividido em três etapas: aulas teóricas sobre a dengue; trabalho de campo dos alunos, com visitas a residências na comunidade e desenvolvimento de gráfico sobre o índice de focos do mosquito nos arredores da escola. Esse gráfico foi afixado no comércio e locais de grande movimento de pessoas na Cohab II.
    Alunos durante encenação em sala de aula da Escola Tancredo Neves.
    Alunos durante encenação em sala de aula da Escola Tancredo Neves.

     

     
    Com a encenação, os alunos mostraram as situações que favorecem a proliferação do mosquito, como lixo e o acúmulo de água.
     
    O projeto teve outros subprojetos, como o "Dengue Encena" e a "Brigada do agente escolar mirim contra a dengue". Com a encenação, os alunos mostraram as situações que favorecem a proliferação do mosquito, como lixo e o acúmulo de água. O cenário do teatrinho incluía cartazes com a advertência: "Dengue mata! Você quer ser a próxima vítima?"  As professoras Daniela Cristina Chaves e Sirlene Pereira Queiroz foram as responsáveis pela orientação dos alunos participantes das encenações.
     
    Alunos assistem à encenação da dengue.
    Alunos assistem à encenação da dengue.

    Com a “Brigada Mirim”, a escola Tancredo Neves propôs a criação de “uma cultura de cooperação na comunidade” para o combate e a prevenção ao Aedes aegypti. A brigada tem a função de patrulhar, fiscalizar e orientar os moradores do entorno da escola em relação à transmissão da dengue e à prevenção dos focos do mosquito.

    Para a diretora da “Tancredo Neves”, Elizete Braz da Silva Lemos, o projeto pedagógico contra a dengue merece destaque por ter sido desenvolvido numa escola pública, onde professores e alunos trabalharam juntos pela mobilização da comunidade estudantil e da Cohab II. “E eu valorizo mais ainda pela capacidade que cada aluno teve e pelo envolvimento também dos professores, por ser uma escola de periferia”, analisa. 
     
    Uma das coordenadoras do projeto pedagógico, a professora Marise Pacheco, diz que os trabalhos são exitosos também por terem envolvido diversos parceiros, cujos gestores chegaram ao consenso de que as ações têm que continuar. “É um projeto que repercutiu porque precisa de medidas simples, motivadas pela educação”, disse.
     
    Enio Modesto

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