Última Edição
Janeiro/Março 2020
Janeiro/Março 2020

Saúde

Mal de Alzheimer transtorno cognitivo maior

  • Hoje em dia, são muitas famílias que sofrem com esse Mal. São entes queridos, com uma vida ativa e produtiva, que a partir de determinado momento, começam a sofrer sintomas de doenças degenerativas. Uma situação triste e difícil de lidar, envolvendo toda a família. Com o intuito de ajudar as pessoas que vivem essa situação, a FOCO entrevista um grande especialista do assunto. Com anos de estudos e experiência no tema, Dr. Renato Silveira Silva nos relata um pouco do que viveu e esclarece algumas dúvidas a respeito desse Mal.

    De todo o ano em que tive o prazer de acompanhar o ambulatório e dos 4 meses em que convivi diariamente na enfermaria do PROTER (Projeto da Terceira Idade) do IPQ (Instituto de Psiquiatria) do HCFMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), com os pacientes internados, médicos residentes e grandes nomes de referência nacional e internacional nos estudos dos quadros demenciais, me lembro das reuniões intermináveis no CEREDIC (Centro de Referências em Distúrbios Cognitivos), nas quais fui apelidado de “mineirinho do pão-de-queijo”; reuniões estas, que se iniciavam às 7h da manhã e terminavam às 15h, nas quais eu me unia à profissionais que dedicavam e ainda dedicam suas vidas aos estudos dos quadros demenciais enquanto discutíamos casos de maneira séria e profunda, com todo o esforço, no intuito de ajudar pessoas com doenças degenerativas.

    Em decorrência dessas discussões delongadas, certa vez, resolvi levar o famoso pão-de-queijo mineiro para o “lanchinho do meio-dia” o que acabou se tornando um hábito.

    O psiquiatra Dr. Renato Silveira Silva: O seu humor se modifi ca e com o avançar da doença o paciente não reconhece mais as pessoas do seu convívio.
    O psiquiatra Dr. Renato Silveira Silva: O seu humor se modifi ca e com o avançar da doença o paciente não reconhece mais as pessoas do seu convívio.

    Lideravam essas reuniões, 2 dos maiores estudiosos brasileiros da Doença de Alzheimer e de outras demências: os professores Dr. Cássio Bottino (chefe do serviço de Psicogeriatria do HCFMUSP) e o Dr. Ricardo Nitrini (professor titular da neurologia da FMUSP).

    Basicamente, nesses encontros, havia psiquiatras, neurologistas e geriatras além de fonoaudiólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, nutricionistas e educadores dando à reunião um caráter multidisciplinar ao tratamento da doença de Alzheimer. O que certamente é o correto.

    TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA E ENVELHECIMENTO POPULACIONAL COM AUMENTO DE CASOS DAS DOENÇAS DEGENERATIVAS

    O Brasil tinha, em 1940, 4% de sua população com 60 anos ou mais. A proporção passou para 8,8% em 1998 e são projetados para 12% em 2020, o que corresponde a 25 milhões de indivíduos nesta faixa etária, fruto do crescimento vegetativo e do aumento gradual da expectativa de vida.

    O aumento da população de idosos no Brasil traz consigo um aumento na prevalência de distúrbios neurológicos e psiquiátricos, além de um aumento na prevalência dos problemas de saúde característicos do idoso como doenças cardiovasculares, diabetes, entre outros.

    Alzheimer

    A demência afeta aproximadamente 5% dos idosos aos 65 anos de idade e 20% daqueles com 80 anos ou mais. Além disso, os distúrbios psiquiátricos dos idosos interferem de forma negativa na vida daqueles envolvidos em seus cuidados; e já representam uma das principais áreas de gastos com a saúde da população em países desenvolvidos. A população idosa carece de cuidados especiais por apresentar maiores índices de doenças associadas, uso de diversas medicações, além das limitações esperadas para a terceira idade. A ocorrência mundial de demência aumentou em 22% nos últimos três anos, e o problema já atinge 44 milhões de pessoas, revela um estudo da Alzheimer Disease International, grupo que reúne associações do mundo todo dedicadas a estudar a doença e esse número triplicará até 2050, passando para 135 milhões de indivíduos.

    O QUE É DOENÇA DE ALZHEIMER E QUAIS SÃO SEUS SINTOMAS?

    O Mal de Alzheimer é uma doença neurodegenerativa, até hoje incurável, que causa perda progressiva das faculdades intelectuais em decorrência de uma atrofi a do cérebro o que causa uma deterioração progressiva das funções cognitivas: memória, concentração, atenção, orientação, inteligência e linguagem que repercute sobre o comportamento e a vida cotidiana e, progressivamente, o doente se torna totalmente dependente. O seu humor se modifi ca e com o avançar da doença o paciente não reconhece mais as pessoas do seu convívio. A evolução ocasiona difi culdades de alimentação e deglutição, que levam à desnutrição e emagrecimento. É IMPORTANTE RESSALTAR QUE HOUVE UMA MUDANÇA NA NOMENCLATURA DA PATOLOGIA, QUE ATUALMENTE, SE DENOMINA TRANSTORNO COGNITIVO MAIOR.

    Há algumas características que sugerem o Transtorno Cognitivo Maior (TCM) e é importante que a família esteja atenta para tais sinais e sintomas como esquecimentos frequentes (esquecimentos eventuais e lapsos de memória são considerados normais).

    Apesar de uma mudança atual nos critérios de diagnósticos do TCM (Demência Alzheimer) na qual o déficit de memória passa a não ser mais obrigatório para o diagnóstico da doença, este ainda é o sintoma mais proeminente deste Mal.

    A fase inicial da Doença é a melhor fase para se iniciar o tratamento medicamentoso para a prevenção dos prejuízos.

    Esquecimentos persistentes que trazem prejuízos à vida do indivíduo como perda de compromissos relevantes, pagamentos de contas, perda de documentos importantes, difi culdades ou inabilidade em manejar dinheiro são sintomas que chamam a atenção para o diagnóstico do Transtorno. O paciente também pode ficar repetitivo e assim contar várias vezes a mesma estória. A queixa de esquecimento perceptível pelo próprio paciente ou por familiares, sobretudo quando há interferência no cotidiano do indivíduo, deve ser valorizada e servir de sinal de alerta para que a família busque avaliação médica especializada.

    Por que a perda de memória?

    A perda de memória advém de uma série de fatores, muitos ainda desconhecidos, mas sabe-se que o depósito da proteína TAU causa emaranhados neurofibrilares, descritos em 1907, pelo Psiquiatra alemão Alois Alzheimer, conhecido como “O Psiquiatra do Microscópio”, o que levaria a um mau funcionamento e decorrente redução de uma região específica do Cérebro, conhecida como Hipocampo a qual é responsável, sobretudo, pela memória de curto prazo.

    É importante avaliar o uso de sedativos-hipnóticos (ex: clonazepam, diazepam, alprazolam entre outros benzodiazepínicos), estados depressivos, e alterações hormonais, sobretudo da glândula tireóide, paratireóide, entre outras causas orgânicas para que se tenha um diagnóstico preciso do déficit de memória, descartando ou pressupondo o diagnóstico do Transtorno Cognitivo Maior, o que deve ser avaliado através de exames clínicos, laboratoriais e de imagem, bem como uma história clínica bem coletada.

    É demência ou doença de Alzheimer?

    A Demência de Alzheimer é nada mais que a evolução da Doença de Alzheimer, hoje renomeada de Transtorno Cognitivo Maior. A Demência é o processo de deteriorização dos processos de memória, atenção, orientação, linguagem e inteligência, o que resulta em prejuízos nas funções de planejamento e execução das ações de vida do paciente.

    Qual exame para o diagnóstico do Alzheimer?

    O diagnóstico de certeza do Alzheimer é por meio de biópsia, pós mortem, portanto, o mesmo não é realizado.

    Entretanto, o diagnóstico possível e provável é realizado por meio de avaliação clínica por profissional da área, com competência, por meio de uma história clínica bem coletada, exames neuropsicológicos, testes cognitivos e exames complementares de sangue e Ressonância Nuclear Magnética com volumetria de Hipocampo.

    Há testes ainda em fase de estudos no líquor e mapeamento cerebral. Todavia, estes ainda não são usados na prática clínica.

    Quando é dada a confirmação do diagnóstico à família, quais as primeiras atitudes a serem tomadas?

    Isso depende da fase em que o paciente se encontra na doença de Alzheimer, ou seja, se há quadro demencial e em que nível de demência o paciente se encontra.

    A fase inicial da Doença é a melhor fase para se iniciar o tratamento medicamentoso para a prevenção dos prejuízos.

    Em relação a medidas não farmacológicas, os familiares podem ajudar orientando o paciente em relação ao tempo e ao espaço vivido. Porém a palavra-chave para os familiares em todas as fases é Supervisionar.

    Supervisionar o uso de medicações, movimentações financeiras, conscientizar o paciente sobre os riscos da prática de direção de automóvel, retirar tapetes, tomar cuidado com objetos pontiagudos, fazer adaptações especiais em escadas como colocar antiderrapantes para evitar quedas, supervisionar o processo de cozinhar devido a riscos de incêndio e trocas de produtos com aparência semelhante.

    O banheiro pode ser um local bastante perigoso, pois a umidade do piso pode levar a quedas e traumatismos. É importante a instalação de barras de segurança para tornar o ambiente mais seguro.

    É válido ressaltar que o paciente com Alzheimer não é uma criança e não deve ser tratado como tal. O estímulo à sua autonomia faz parte do tratamento e pode ajudar o paciente inclusive nos sintomas depressivos, muito comuns na doença.

    Contar ou não contar para o paciente?

    Cada indivíduo é uma obra de arte Divina e tratar a todos de forma igual seria pensar de maneira reducionista. Porém, com as ferramentas terapêuticas atuais existentes e a possibilidade do desenvolvimento de uma vacina, uma “cura” (principalmente para os quadros que se mantiverem no início do processo degenerativo), nos próximos 2-3 anos, nos motiva a contar aos pacientes para que eles sejam agentes ativos de sua manutenção e melhora, realizando e colaborando com as orientações baseadas em evidências científicas.

    Fases

     

     

    Como é o tratamento?

    Os pacientes podem ter seus sintomas controlados por meio de medicações em uso correto e em doses adequadas, o que leva a uma lentifi cação importante do quadro demencial. Por isso a importância de um diagnóstico precoce.

    Medidas e orientações como atividades físicas e mentais, possuir elevado grau de escolaridade, dieta hipocalórica, controle e tratamento dos níveis de Pressão Arterial precocemente (desde os 30 a 40 anos), quando necessário e controle dos níveis de glicose (açúcar no sangue) e do diabetes.

    Pesquisas recentes mostram que os exercícios físicos podem ajudar a promover as funções mentais e reduzir os riscos de declínio cognitivo e demência em idosos saudáveis ou com comprometimento cognitivo leve.

    Exercícios mentais também podem ajudar, tais como jogos mentais, ter nível elevado de escolaridade, ter fluência em outras línguas, dieta hipocalórica (baixas calorias), dieta do mediterrâneo (castanhas, frutas secas, peixes, ômega 3) além de banhos de sol pela manhã.

    É válido ratificar que um novo tratamento através de uma vacina está sendo pesquisado e aguardado para os próximos 2 a 3 anos, o que nos enche de esperança na cura da Doença de Alzheimer.

    *Alerto para o fato de que essa divisão tem caráter didático e, muitas vezes, sintomas classifi cados em diferentes fases se mesclam em um mesmo período.
    *Alerto para o fato de que essa divisão tem caráter didático e, muitas vezes, sintomas classifi cados em diferentes fases se mesclam em um mesmo período.

     

     

    O que muda na rotina da família e paciente?

    Cada indivíduo é único e a maneira de lidar com a patologia faz diferença na rotina do paciente. O paciente precisa ter disciplina e seriedade ao seguir as orientações terapêuticas, medicamentosas ou não. É preciso treinar a virtude da paciência a todo instante, pois nem sempre os dias serão fáceis.

    É muito importante que os cuidadores não fiquem mudando o paciente de casa a cada semana (quem se desloca são os cuidadores, e nunca o paciente).

    O paciente deve ser sempre lembrado e orientado quanto ao tempo e ao espaço que ocupa (paciência x supervisão x paciência ÷ todos os familiares = maior chance de sucesso).

    Importante pedir ajuda, dividir tarefas, “nunca carregar o piano sozinho”, pois, essa seria uma tarefa impossível à maioria das pessoas. Além do fato de que cuidadores de fora da família acabam por invadir, de certa forma, a liberdade e a intimidade de pacientes e familiares.

    Como a família pode ajudar?

    É muito importante a família procurar tratar as defi ciências nos órgãos sensoriais, como por exemplo: deficiência visual (providenciar óculos, operação de catarata, etc..), deficiência auditiva (prótese auditiva), mobilização do paciente além de uma procura incisiva e enfática pela manutenção das funções fisiológicas como alimentar, defecar, tomar água (idosos, com frequência, não sentem sede). Evitar que o paciente durma durante o dia.

    Lembrar que o tratamento é multidisciplinar e procurar valorizar essa ajuda multidisciplinar com médicos, enfermeiros, cuidadores, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, enfim, utilizar todas as ferramentas possíveis para a melhora e encorajar o paciente a lutar contra esse mal. Os membros devem se ajudar mutuamente, dividindo tarefas e... TER PACIÊNCIA, TER PACIÊNCIA, TER PACIÊNCIA é fundamental.

    A doença de Alzheimer pode ser evitada?

    Não. Entretanto, o controle é possível, e a lentificação da síndrome demencial, através do tratamento medicamentoso, é extremamente importante até o desenvolvimento da cura.

    A doença de Alzheimer tem cura?

    Ainda não. Porém estudiosos estão se aproximando cada vez mais dessa possibilidade.

    Dicas para tornar os dias mais leves para a família e cuidadores

    Aprendam sobre a doença, saibam diferenciar situações graves de situações corriqueiras, peçam ajuda de familiares e de profissionais especializados.

    Pratiquem a paciência, mas não se importem tanto a ponto de adoecerem. ”Somos seres humanos e fazemos apenas o que está ao nosso alcance.”

    Tirem dias de folga e vivam a vida!

    Memento Mori et Carpe Diem = lembra-te que és mortal e aproveite o seu tempo.

    Dr. Renato Silveira Silva

    © 2019 Foco Magazine. Todos os direitos resevados.