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Janeiro/Março 2020
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Saúde

Desmistificando o Transtorno Afeitvo Bipolar (TAB)

  • A VARIAÇÃO DO HUMOR nos seres humanos é algo fisiológico e esperado em decorrência a situações vivenciadas e experimentadas no cotidiano. No entanto, algumas pessoas carregam em sua herança uma alternância exagerada e patológica do humor a qual, atualmente, denominamos Transtorno Afetivo Bipolar (TAB).

    Dr. Renato Silveira Silva, Médico Psiquiatra: “É parte da cura o desejo de ser curado.” (Sêneca)
    Dr. Renato Silveira Silva, Médico Psiquiatra: “É parte da cura o desejo de ser curado.” (Sêneca)

    FOCO: O mundo é bipolar? 

    Dr. RENATO: Não. Há uma confusão em relação à esse questionamento devido ao fato de que todo ser humano sofre variações fisiológicas do humor, tanto para cima quanto para baixo. Tal variação é influenciada por diversos fatores, tais como: fases da vida, conflitos a serem enfrentados, períodos do ano, luto, alterações hormonais, uso de substâncias psicotrópicas e eventos de vida (tudo o que “mexe” com a pessoa, como: troca de emprego, término de relacionamento, mudança de cidade, entre outros).

    FOCO: Mas afinal, o que é ser bipolar e quais são as características deste transtorno?

    Dr. RENATO: O Transtorno Afetivo Bipolar (TAB) é um transtorno psiquiátrico caracterizado por alternância de episódios de depressão e euforia patológica.

    Os episódios depressivos são caracterizados por redução de energia, alterações de sono e apetite, tendência ao isolamento social, ausência de prazer nas atividades (anedonia), pessimismo e desesperança. O paciente deprimido queixa-se de medos irracionais, culpa excessiva e sentimento de menos valia, além de prejuízos na memória, concentração e atenção.

    Os episódios eufóricos se caracterizam pela elevação do humor com aumento da energia corporal, insônia e/ou redução da necessidade do sono, fala aumentada além do habitual (verborragia) e hipersexualidade (aumento de risco de doenças sexualmente transmissíveis). Apresenta grandiosidade, aumento do comportamento impulsivo com excesso de autoconfiança se expondo a situações de risco, como acidentes, além de apresentar gastos excessivos, podendo acarretar dívidas. Em casos graves, pode haver sintomas delirantes.

    Na Classificação Internacional de Doenças em sua décima versão (CID-10), pela Organização Mundial de Saúde (OMS), tais sintomas devem ter duração de no mínimo 2 semanas para depressão e 2 dias para euforia.

    FOCO: E quais são as causas deste transtorno?

    Dr. RENATO: A etiologia do Transtorno Afetivo Bipolar (TAB) é multifatorial.

    Algumas pessoas carregam em sua herança genética uma variação exagerada e patológica do humor, dando ao transtorno uma faceta familiar. E isso explica que enquanto o risco da população geral é de 2%, parentes de 1º grau chegam a 9% e gêmeos univitelinos, 45%.

    Alterações químicas (neurotransmissores como serotonina, adrenalina, dopamina, etc.) e alterações estruturais do cérebro também estão relacionadas ao desenvolvimento da doença.

    Eventos de vida (situações vivenciais que “mexem” com as emoções das pessoas tanto para o lado positivo quanto negativo) podem funcionar como gatilho para o desencadeamento de crises tanto depressivas quanto eufóricas. Quando pensamos em fatores psicológicos, a baixa capacidade de resiliência (*) individual pode ser fator determinante na etiologia do TAB.

    (*) resiliência: habilidade de lidar com problemas, tolerar frustrações, superar obstáculos ou resistir a pressão de situações adversas retornando ao estado de equilíbrio anterior, sem que ocorra adoecimento. 

    FOCO: Há algum sinal que possa assinalar ao paciente o início de uma crise?

    Dr. RENATO: Sim. O grande termômetro que marca o início das crises são as alterações do SONO. A crise eufórica tem a insônia e/ou a redução da necessidade de sono como seu marcador inicial, e isto deve ser valorizado pelo paciente e por seus familiares. Da mesma forma, tanto insônia quanto hipersonia (sonolência excessiva), podem ser fatores preditivos de episódios depressivos. Outros sinais a serem observados são aumento ou diminuição da fala e a expansão ou redução do campo vivencial (tudo o que você vivencia no dia a dia).

    FOCO: Qual é o papel da família no diagnóstico e na adesão ao tratamento?

    Dr. RENATO: É fundamental. Sobretudo durante as crises, quando o paciente apresenta falta de entendimento e de adesão ao tratamento, comportamento desorganizado ou agressivo, incluindo até mesmo o risco de suicídio.

    O papel da família é dar sustentação emocional, buscar e aceitar ajuda profissional, seguindo as orientações do plano terapêutico indicado.

    Nos momentos em que o paciente se encontra fora das crises agudas, é necessário o encorajamento do mesmo pela família, para que ele retome a autonomia de sua vida, de maneira gradual.

    FOCO: O Transtorno Afetivo Bipolar (TAB) pode vir associado a outros transtornos mentais?

    Dr. RENATO: Sim. Apesar de vários transtornos mentais tais como os transtornos alimentares, ansiedade, pânico, déficit de atenção, entre outros, estarem associados ao Transtorno Bipolar, o USO DE SUBSTÂNCIAS COMO ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS e o TRANSTORNO DE PERSONALIDADE BORDERLINE são os mais importantes.

    FOCO: Qual a relação entre bipolaridade e o uso de álcool e outras drogas?

    Dr. RENATO: Devastadora. O impacto clínico da associação entre bipolaridade e uso de substâncias como álcool e outras drogas, está associado a maior número de episódios depressivos, tentativas de suicídio, hospitalizações e altas taxas de insucesso do tratamento.

    Portanto, o uso de álcool e substâncias ilícitas dificulta a estabilização do humor levando a sérios riscos a vida dos pacientes.

    Variações de Humor

     

    Estudos populacionais revelam que enquanto na população geral a taxa de abuso e dependência de álcool situa-se em torno de 13% e para outras drogas é de 6%, nos portadores de transtorno bipolar esta taxa sobe para 46 e 41%, respectivamente.

    FOCO: E a relação com o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB)?

    Dr. RENATO: O transtorno de personalidade associado à bipolaridade talvez seja um dos maiores desafi os à prática da psiquiatria clínica, sendo o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) o maior responsável entre essa associação. Em estudos com metodologia mais rigorosa, a taxa média de prevalência encontrada da associação de ambos os transtornos foi de 37,7%. Portadores de bipolaridade associada ao Transtorno de Personalidade Borderline apresentam maior número de crises, com quadros depressivos de maior gravidade, aumento do risco de suicídio e ainda taxas mais elevadas de abuso de álcool e outras drogas.

    Tratamento

    Entretanto há pesquisas apontando que em até 40% dos pacientes diagnosticados como Bipolares, na verdade possuem o Transtorno de Personalidade Borderline como diagnóstico, acarretando em uso inadequado de medicações, gastos desnecessários além de gerar no paciente insegurança na subjetividade diagnóstica. 

    A dificuldade diagnóstica advém do fato da sobreposição de sintomas de Bipolaridade e do Transtorno de Personalidade Borderline tais como instabilidade afetiva, necessidade de atenção, grandiosidade, irritabilidade e impulsividade.

    A diferença marcante no diagnóstico de TPB em relação ao TAB é a presença da hiperreatividade interpessoal (reação exacerbada a situações do cotidiano como frustrações corriqueiras do dia a dia nas relações pessoais) muito intensa e abrupta no TPB.

    A importância da distinção das duas patologias, TAB e TPB, e o diagnóstico da presença concomitante ou não de ambas, influencia diretamente no tratamento das mesmas.

    Portanto somente profissionais habilitados, com a realização de um Exame Psíquico detalhado são capazes de diferenciar TAB de TPB pela semelhança em diversos aspectos clínicos comportamentais. Desta forma, reafirma-se a importância diagnóstica precisa, devido à complexidade das doenças, que apesar de apresentarem sintomas parecidos, têm propostas terapêuticas, sobretudo medicamentosas, bastante diferentes.

    FOCO: Como é realizado o tratamento?

    Dr. RENATO: O objetivo de curto prazo no tratamento do Transtorno Afetivo Bipolar (TAB) é o tratamento dos episódios depressivos ou eufóricos evitando assim os riscos, já relatados acima, das crises agudas; enquanto o objetivo de longo prazo é a profilaxia das recorrências, isto é, impedir que o paciente apresente novos episódios depressivos ou eufóricos, conseguindo assim a estabilização do humor. As medicações utilizadas são conhecidas como ESTABILIZADORAS DE HUMOR, citando Carbonato de Lítio, Ácido Valpróico, Neurolépticos de 2ª Geração, entre outros.

    Na maioria dos casos o tratamento pode ser feito em regime ambulatorial, à exceção de casos em que, por motivo de risco de suicídio, falta de crítica e não adesão ao tratamento, comportamento desorganizado, ou agressivo, se tenha optado pela internação.

    MUITAS PESSOAS COM CARREIRAS SÓLIDAS FORAM DIAGNOSTICADAS COMO BIPOLARES, MOSTRANDO ASSIM QUE APESAR DA GRAVIDADE DA DOENÇA, COM O TRATAMENTO ADEQUADO E ORIENTADO POR UM ESPECIALISTA DE SUA CONFIANÇA, A VIDA PODE SER MUITO ALÉM DO NORMAL, PODE SER FANTÁSTICA!!

    Referências Bibliográficas:
     
    Clínica Psiquiátrica – A visão do Departamento e do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP; Eurípedes Constantino Miguel, Valentim Gentil, Wagner Farid Gattaz; Ed. Manole, 2011.
    Enigma Bipolar – Consequências, diagnóstico e tratamento do transtorno bipolar; Teng Chei Tung; MG Editores, 2007.
    Bipolar – Desafios atuais; Associação Acadêmica Psiquiátrica de Minas Gerais; Segmento Farma, 2009.
    Borderline Personality and Mood Disorders; Lois W. Choi-Kain, John G. Gunderson; Ed. Springer Verlag NY, 2014.
    Handbook of Good Psychiatric management for Borderline Personality Disorder; John G. Gunderson, Paul S. Links; American Psychiatric Publishing, 2014.
     
    Dr. Renato Silveira Silva CRM - MG 39.316
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