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Janeiro/Março 2020
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Saúde

O idoso e a dor

  • O geriatra Diogo Kallas Barcellos chama a atenção da sociedade para um problema que afeta grande parte da população idosa, a dor, da qual muitos sofrem calados.

    O geriatra Diogo Kallas Barcellos.

    O Brasil é um país em que a população idosa cresce em ritmo acelerado há pelo menos 12 anos. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2002 até 2012 a porcentagem de idosos aumentou de 14,9 para 19,6 em cada grupo de 100 pessoas com potencial ativo, correspondendo a 12,6% da população total do país. Com mais gente de 60 anos ou mais de idade nas famílias, uma das preocupações é com o bem-estar dessa população. E a preocupação é maior ainda no aspecto da saúde, pois de 50 a 60% dos idosos possuem algum tipo de dor crônica. Entre aqueles que vivem em instituições, a proporção chega a 80%.

    “A dor se define como uma experiência sensorial e emocional desagradáveis, associada a danos reais ou potenciais em tecidos do corpo humano. É uma experiência subjetiva, isto é, cada pessoa expressa sua experiência de forma única e individualizada”, explica o médico geriatra Diogo Kallas Barcellos, que estuda o assunto em pós-graduação - “Cuidados ao paciente com dor”, no hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

    Os estudos do geriatra mostram o quanto é difícil para os profissionais lidarem com o assunto por causa de diversos fatores, como o próprio mito de que a dor é um processo natural da velhice, a tentativa de alguns de tolerá-la ou até mesmo de tentar escondê-la da família. Em outros casos ocorre o contrário: pacientes se queixam em demasia, muitas vezes até de dores inespecíficas, sendo, por inúmeras vezes, negligenciados.

    “É o mito da ‘idade do condor’. É muito importante trabalharmos esse processo de maneira educativa para as pessoas e para os profissionais da saúde que não dão o exato valor à queixa dolorosa do paciente”, diz Dr. Diogo, observando que menos de 50% dos idosos que sofrem de algum tipo de dor procuram assistência médica e fazem um controle adequado dela. Por outro lado, 25% morrem sem controlar a dor.

    Saúde do Idoso.

    São várias as consequências da falta de controle dos processos dolorosos: aumento da procura por serviços médicos, prejuízos na realização das atividades cotidianas, o que gera problemas mentais como distúrbios do sono, transtornos de ansiedade, depressão, alterações cognitivas, entre outras.

    DOENÇAS CRÔNICAS

    Na sua maioria, as dores nos idosos são causadas por doenças crônicas, podendo ser de origem osteomusculares (artrose, artrites, osteoporose), neuropatias (doenças ou disfunções dos nervos), câncer, doenças vasculares, Parkinson, AVC (acidente vascular cerebral).

    Todos esses fatores relacionados à falta de controle do processo doloroso provocam outro grande mal, o isolamento social do idoso. Para o Dr. Diogo, em todos os casos é preciso que o médico faça uma avaliação global do paciente, para evitar julgamentos errôneos sobre a causa da dor, o que leva a uma desvalorização do quadro apresentado. “Seria importante o paciente entender que a dor não faz parte do processo de envelhecimento, mas, sim, consequência de doenças, sendo possível o controle”, observa o médico.

    Saúde do Idoso

    Quanto ao paciente, cabe a ele aderir ao tratamento instituído quando a causa do problema é identificada. Segundo o geriatra, muitos resistem alegando custo elevado da medicação, outros não querem acrescentar mais remédios àqueles dos quais já fazem uso contínuo, alguns temem a possibilidade de reações adversas ao tratamento e vários desistem por ter vivenciado experiências frustradas no passado. Nos casos em que o idoso não se manifesta espontaneamente sobre a dor, como por exemplo, nos pacientes com demências, a família deve ficar atenta a alguns sinais: agitação, agressividade, alterações no sono, gemidos, choro, falta de apetite, que são alterações perceptíveis nesse tipo de paciente, conforme explica o médico.

    TRATAMENTO

    Por ser de causas, muitas vezes, complexas e multifatoriais, a dor deve ser diagnosticada e tratada por uma equipe multidisciplinar, composta de médico, odontólogo, enfermeiro, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, psicólogo, terapeuta ocupacional e educador físico, devidamente treinados. “Essa equipe pode mensurar a dor de um paciente e planejar seu tratamento. A partir de uma avaliação global, consegue-se identificar e estabelecer metas de tratamento”, explica Dr. Diogo Kallas.

     

    Saúde do Idoso.

    A dor pode ser tratada de diversas formas, cada uma de acordo com sua causa específica. Massagens, alongamentos, acupuntura, terapia cognitiva-comportamental, atividades físicas, medicação antiinflamatória, analgésica, antidepressiva, anticonvulsivantes, cremes tópicos, infiltrações, entre outros, são indicados conforme o diagnóstico levantado. Em casos mais graves, que não chegam a 10%, poderão ser prescritas terapias intervencionistas.

    “Se não tratar, a tendência é o agravo da dor, o que gera ainda mais dor e sofrimento”, alerta o geriatra. “Não subestimem a queixa do paciente, procurem assistência o quanto antes, porque isso fará diferença na qualidade de vida do idoso”, acrescentou.

    Enio Modesto

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