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Janeiro/Março 2020
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Saúde

Dilema: qual a idade ideal para meu filho entrar para a escola?

  • A maternidade chega acompanhada de uma lista imensa de “horas certas”. Os pais são bombardeados com conselhos e manuais que definem uma idade exata para cada fase do desenvolvimento do filho. Criam-se definições super precisas da idade certa para o bebê falar, andar, tirar a fralda, e, finalmente, entrar para a escolinha. Mas afinal de contas, qual a melhor idade para colocar a criança na escola? Especialistas expõem prós e contras de adequar os filhos cedo em uma rotina escolar. Entenda aspectos importantes para tomar a melhor decisão para sua família.

    De uns anos para cá, cada vez mais cedo as crianças estão saindo de casa para ir para a escola. No passado, a idade mínima para uma criança frequentar a escola era cinco anos, quando ela entrava no Jardim da Infância, depois passava para o Prezinho e aos sete anos ia para a Primeira Série. Alguns pais preferiam matriculá-las diretamente na Primeira Série – fato bastante usual ainda hoje fora dos grandes centros urbanos.


    Todavia, de alguns anos para cá, as crianças têm sido matriculadas na escola com idades mínimas que variam de oito meses a um ano. Do ponto de vista de alguns especialistas, um exagero, uma vez que até os três anos de idade a criança ainda precisa muito da mãe para a construção de sua identidade e de sua autonomia. Compreende-se perfeitamente que isto é feito em nome das mudanças que ocorreram na sociedade, que obrigam pais e mães a terem que trabalhar o dia todo e não terem com quem deixar a criança.Mais tarde, a idade mínima diminuiu para três anos, com o chamado Maternal. Então, quando a criança já tinha deixado as fraldas, já se comunicava oralmente, tinha a coordenação motora necessária para participar de todas as atividades propostas como pintar, desenhar, recortar, colar, amassar, enrolar, subir, descer, saltar, correr, pular, agarrar, cantar, tocar instrumentos, dramatizar, etc. Mas principalmente, quando ela já tinha desenvolvido uma certa autonomia emocional em relação à mãe, ia para o Maternal, que recebeu este nome justamente por “substituir” os cuidados maternos. O Maternal era e é considerado até hoje o limite mínimo para uma criança ir para a escola, justamente pelas razões expostas acima.

    Sistema Imunológico baixo

    Do ponto de vista médico, três anos é a idade mínima para se pensar em expor o filho a um ambiente escolar. Segundo o médico pediatra, Marcelo Lemos Gomes, três anos é a idade ideal porque a vacinação está completa, ficando difícil a criança contrair doenças. Além disso, o pequeno começa a diminuir o período de sono da tarde.

    Dilema: qual a idade ideal para meu filho entrar para a escola?

    De acordo com o especialista, entrar para a escola mais tarde tem suas vantagens, assim como entrar mais cedo também tem. Cabe somente à família decidir o que é melhor para a criança. “Quanto mais tarde, melhor está a imunidade, isto é fato. A principal vantagem é que está cada vez mais difícil conseguir pessoas para ficar com as crianças e brincar com elas em casa, então a escola é o ideal. Desde pequenas elas ficam viciadas em TV. Na escola não! Elas começam a se relacionar mais cedo, sabem dividir coisas, brincam em grupos, diminui bastante o egoísmo em relação àquelas que ficam sozinhas”, fala Dr. Marcelo.“Antes dos três a criança fica mais suscetível em adquirir doenças. Quanto maior o número de pessoas no contato com a criança, mais fácil será ela adquirir doenças, principalmente as viroses. Quando a criança vai para a escola com febre por exemplo, e tem contato com outras neste período, pode acontecer a transmissão de catapora, exantema súbito, bronquiolite, estomatite, etc. Pode também acontecer a transmissão de doenças bacterianas e muitas delas são graves apesar de não ser tão comum como as doenças virais, explica o pediatra.

    O médico aconselha aqueles pais que de fato não têm com quem deixar a criança e vão matricular seu filho na escola, a tomar as seguintes precauções: visitar a escola, a cozinha, o lactário e conhecer a higiene do local. “Muito cuidado com escolas que tenham piscinas. Averiguar quantas crianças ficam com cada monitor, ir ao horário das refeições para checar se são individualizadas e mais que tudo, verificar a rotina da escola que nesta idade deve oferecer brincadeiras e não deveres às crianças”, observa o médico.

    “Temos que ter cuidado para não transferir para a escola a educação que temos que dar para nossos filhos. Crianças precisam ter uma rotina, horários, compreender o funcionamento do mundo à sua volta. Tem que ter hora para brincar, lanchar, descansar, ir para a escola, voltar para casa. Se ela começar a ficar muito doente, o melhor a se fazer é levar ao médico para ver se está desenvolvendo algum problema”, completa o pediatra.

    Dilema: qual a idade ideal para meu filho entrar para a escola?

    A psicóloga clínica (comportamental cognitiva e sistêmica) e também psicopedagoga, Neuza Furtado, afirma que a idade ideal para se colocar o filho na escola, se os pais puderem aguardar, logicamente, é aos 3 anos. “Nesta idade a criança terá um aproveitamento melhor do que uma abaixo de três. Ela está mais amadurecida, mais preparada para conviver em grupo, está na verdade, começando a sair da fase do egocentrismo. Antes dessa idade, o mundo gira apenas em torno dela”, fala Neuza.

    TRÊS ANOS: Amadurecimento

    Aos três anos, a criança tem mais facilidade de aprender a dividir, de estabelecer a questão da rotina em sua vida, de que há hora para tudo, inclusive brincar, descansar, realizar atividades, daí, é um momento bom para entrar para a escola. “A entrada na escola precisa ser feita com muito cuidado para não gerar um estress, tornando a criança irritada e ansiosa”, explica a psicopedagoga.

    Mas Neuza enumera alguns benefícios da escola caso a criança tenha que entrar mais cedo, antes dos três. “Caso a criança seja filha de pais que não oferecem ou nem tem tanto tempo para oferecer estímulos a ela, a escola vem a calhar. Lá há profissionais preparados para isso. Trabalham o sensorial, o toque, o afeto. A criança recebe todos os cuidados necessários que precisa. No entanto, é bom os pais saberem: até 1 ano e meio, segundo Jean Piaget, o pequeno é totalmente egocêntrico”, diz a psicopedagoga completando: “É necessário os pais avaliarem detalhadamente a escola do filho antes de matriculá-lo, pois se a instituição não oferecer aquilo que precisa para esta faixa etária, a criança poderá futuramente ter consequências no seu desenvolvimento afetivo e cognitivo”, diz Neuza Furtado.

    Se ambos os pais trabalham e não possuem uma estrutura familiar ou domiciliar para cuidar do seu bebê enquanto estão trabalhando, terão sim, que escolher uma creche ou uma escolinha tão logo se vejam obrigados a reassumir suas funções profissionais. Neste caso, a decisão de colocar a criança em uma creche ou escola é baseada em uma necessidade real dos pais e não da criança. Os pais, segundo a psicopedagoga, Neuza Furtado, devem escolher uma instituição educacional em que confiem, se sintam seguros e a criança certamente irá se adaptar.

    “Nesta situação é primordial que a família conheça minuciosamente a escola. A estrutura do local, o ambiente colorido e estimulante, o preparo dos profissionais, bem como o jeito deles, os brinquedos, a forma de agirem. Se é um ambiente onde não há isso, certamente o ideal é procurar outra escola. Outra questão a se observar é a atenção dada à criança. Quanto mais amor receber, mais feliz ela será. Uma boa dose de amor resolve grande parte dos problemas”, diz Neuza.

    Dilema: qual a idade ideal para meu filho entrar para a escola?

    SEIS MESES: Precocidade X Necessidade

    A psicóloga clínica, Érika Andrade Queiroz Soares, sugere entrar para a escolinha com 2 anos e meio, 3 anos de idade, isso no interior das cidades. Já nos grandes centros, afirma a psicóloga, a realidade é diferente e os pais têm que deixar seus filhos na escolinha às vezes, já, aos 6 meses de idade.

    “É uma necessidade profissional da família. Seis meses, na minha opinião, é uma idade precoce. O bebê precisa nesta fase da presença da mãe, do colo, do seu cheiro, da sua voz, da sua companhia, porque ainda está ligado à mãe física e emocionalmente. O ideal, caso os pais tenham que sair de casa, é deixar com alguém da família: avós, tios ou em segundo caso, uma babá de confiança. Na verdade, alguém que a nutra das necessidades básicas que ela precisa nesta faixa etária”, fala a profissional.

    Quando a criança chega aos 2 anos e meio, três anos, e não há escolha, ou seja, os pais precisam deixá-la com alguém, Érika afirma que a escola é melhor que uma babá. “Por melhor que seja, a babá não é preparada adequadamente para estar com a criança. A avó também não! Ela pode cobrir de afeto, de carinho, de amor, mas é limitada, não sendo capaz, na maioria das vezes, de correr, de agachar. A criança nesta fase ‘pede atividade’. É importante os pais saberem: a avó está na fase de curtir a criança, no entanto, não tem a obrigação de cuidar do seu neto!”, fala a psicóloga.

    Dilema: qual a idade ideal para meu filho entrar na escola?

    Na opinião de Érika, o ponto mais positivo da escola, da creche ou do hotelzinho, para uma criança de 2 anos e meio, três anos, é a socialização e o estímulo, principalmente e sobretudo, se ela vem de um lar onde há ausência desses quesitos.

    “A socialização na escola é essencial para a criança. Lá ela conhece o Joãozinho, a Lúcia, o Pedro, aprende a pedir desculpas, a respeitar o próximo. Se a escola for boa, possibilitará o estímulo necessário para o seu desenvolvimento motor, linguístico, neurológico e pedagógico. A maioria das escolas são planejadas, programadas, além de possuírem uma equipe especializada e adequada que vai brincar com a criança. A escola é um ambiente riquíssimo em termos de estímulo!”, comenta Érika.

    Para a psicóloga, dependendo do caso, uma criança abaixo de dois anos e meio que entra para a escola pode até se sentir “desadaptada” se não receber o apoio necessário para o seu ingresso na escolinha.

    “Dependendo do contexto familiar, ela pode sim, se sentir abandonada, desamparada ao entrar para a escola. Por isso que a preparação é fundamental. Os pais devem dialogar explicando que na escolinha tem areia para pôr no baldinho, que ela vai desenhar, fazer bonequinhos com a massinha e por aí vai. Quando os pais estão predispostos a estimular seu filho a ir para a escola, ele vai responder bem melhor, e eles poderão observar isso quando forem buscá-lo na escolinha, ao ver a alegria estampada no seu rostinho. No entanto, se os pais estão inseguros e se sentindo culpados por colocar a criança na escola, a criança pode sim, se sentir desajustada. Ela absorve essa insegurança dos pais e pode querer não ir. É fundamental que a família prepare a criança para o seu ingresso na escola”, justifica Érika.

    Os conselhos que a profissional dá aos pais, caso forem matricular seus filhos na escolinha antes dos 2 anos e meio, três anos de idade, são: 1º lugar: se convencer de que a criança tem que ir para a escola. 2º lugar: preparar a criança psicologicamente, lembrando que lá ela vai pintar, conhecer amigos, brincar, escrever, etc. 3º lugar: visitar a escola e conhecer sua estrutura física e humana. 4º lugar: observar a aceitação da criança. Se precisa ir, estimulá-la dizendo que vai conhecer um monte de amiguinhos, etc. “Há casos que tudo isso é feito e mesmo assim a criança não aceita, não fica. Cabe aos pais levá-la para casa novamente e em último caso deixá-la com uma babá ou mesmo alguém da família, como a avó, os tios, etc.”

    Graciela Nasr

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