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Janeiro/Março 2020
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Saúde

Tumor raro afeta visão de criança

  • O oftalmologista Patrick Reis Morais realizou em Passos uma cirurgia para livrar uma menina das possíveis complicações de um tumor raro, o medulo epitelioma; a atenção da mãe da criança foi fundamental na identificação da doença.

    A garotinha Vitória Maria de Paula Barbosa no colo de Dr. Patrick Reis Morais.
    A garotinha Vitória Maria de Paula Barbosa no colo de Dr. Patrick Reis Morais.

    Uma simples foto da filha vestida de fadinha, tirada poucos dias antes dela comemorar o aniversário de cinco anos de idade, em 6 de novembro de 2012, levou a comerciante Rosana Penha de Paula Barbosa suspeitar de que algo estava errado com o olho direito da menina. Ao conferir a fotografia, a mãe notou que o olho não estava totalmente aberto. Ela então pediu para a filha repetir a pose, mas que abrisse o olho. Curiosamente, em todas as fotos o problema persistia. Preocupada, Rosana levou a menina a uma oftalmologista. Aí começou uma série de consultas e exames até se chegar ao diagnóstico: a pequena Vitória Maria de Paula Barbosa era portadora de um tumor cancerígeno intraocular raro e que afeta crianças, o medulo epitelioma.

    “É assim, sem sintoma algum. Foi uma coisa totalmente pega de surpresa”, disse a comerciante, explicando que Vitória não se queixava de dor, falta de visão e nem de qualquer incômodo com o olho doente. “Ela está na escola desde os dois anos de idade. Eu fui perguntar às professoras e disseram que ela nunca havia reclamado de nada.”

    Uma das fotos que possibilitou detectar o problema no olho de Vitória.
    Uma das fotos que possibilitou detectar o problema no olho de Vitória.

    O médico que operou a garotinha é o especialista em retina e vítreo Patrick Reis Morais, o único oftalmologista em Passos que faz cirurgias para remoção de olhos gravemente comprometidos por doenças, como o medulo epitelioma. A paciente perdeu a visão direita, mas Patrick Morais acredita que ela já não enxergava daquele lado há um bom tempo, porque crianças, pelo menos até os oito anos de idade, ainda não sabem direito o que é ver e, portanto, não costumam se queixar caso algo de errado esteja acontecendo com a visão delas.

    Por isso, a atenção da família e dos professores é importante para o diagnóstico precoce das doenças que afetam os olhos de meninos e meninas. A famosa fotografia com flash é realmente um meio que ajuda os pais a suspeitar de possíveis problemas com a saúde ocular dos filhos. Ao bater a foto com flash, o fundo dos olhos tem que ficar vermelho. Se aparecer uma mancha branca, a pessoa deve ser levada ao oftalmologista. “Não que necessariamente o branco seja um problema, pode ser causado pela angulação do nervo ótico e o vermelho do flash também não exclui uma possível doença”, alerta o médico.

    Em todo caso, a prevenção é sempre uma medida indicada, principalmente para se descobrir possíveis doenças em estágio inicial, o que facilita o tratamento. “A diretriz da Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica é para consultas de três em três meses no primeiro ano de vida e, depois, de seis em seis meses. Acho que não precisa tanto. Eu oriento os pais para consultas a cada seis meses até completar um ano de idade e, a partir daí, uma vez por ano”, diz Patrick Morais.

    Em relação à pequena Vitória, o médico explica que o cuidado da mãe evitou que o pior pudesse acontecer. Em casos mais adiantados, o tumor provocaria metástase e as consequências poderiam ser fatais. Após ser avaliada por outros oftalmologistas, a menina foi encaminhada para o Dr. Patrick Morais, que pediu um ultrassom do olho afetado.

    Com a possibilidade do tumor altamente maligno, o médico encaminhou o caso para uma avaliação do especialista Fábio Nogueira, que atende em Divinópolis e Belo Horizonte. Após todo esse cuidado investigativo, o diagnóstico foi concluído: era mesmo um tumor intraocular maligno, raro e que afeta crianças, o medulo epitelioma. “É um tumor muito difícil de diagnosticar no começo, por causa do difícil acesso. Quando aparece está muito adiantado”, lamenta o Dr. Patrick Morais.

    Vitória Maria.
    Vitória Maria.

    O oftalmologista conta que já presenciou estágios mais avançados da doença, quando não havia mais solução. No caso de Vitória, a notícia não era tão ruim. O indicado para ela foi a nucleação, que consiste na retirada do órgão, evitando a temida metástase e possibilitando sua recuperação com tratamento oncológico complementar.

    A cirurgia foi realizada na Santa Casa de Misericórdia de Passos, num procedimento que durou cerca de uma hora e meia. Em seguida, a menina foi encaminhada para exames relacionados à possibilidade de metástase e para controle periódico no Hospital Regional do Câncer. Felizmente, os resultados foram animadores. Um mês depois da cirurgia, Vitória recebeu a prótese e pôde voltar à rotina, como ir à escola, brincar, etc. “Ela até já fez um desenho meu”, recorda o médico.

    Como aconteceu com Rosana Barbosa, a atenção dos pais com seus filhos na fase infantil é primordial para prevenir o agravamento de doenças que podem comprometer a visão. Olho torto, olho que não se abre completamente, criança que se aproxima de objetos para enxergá-los, fotofobia (fecha os olhos na claridade), olhos vermelhos e o reflexo branco na pupila em fotografias com flash são sinais que merecem uma avaliação de especialistas.

    O medulo epitelioma é um tumor raro, de causa ainda desconhecida, mas outro tipo de câncer ocular, o retinoblastoma, é mais comum e pode ser tratado se descoberto em estágio inicial.

    Para isso, os pais devem levar seus filhos pequenos ao oftalmologista periodicamente, mesmo que eles não apresentem qualquer alteração aparente na visão. “Porque elas podem não apresentar um sintoma desses e as crianças não são proativas para falar que não estão enxergando bem daquele olho”, explica.

    O retinoblastoma é o responsável pela grande maioria dos tumores intraoculares, 80% do total. Esse câncer maligno aparece mais em bebês e pode se desenvolver em crianças com mais idade. “Por isso que hoje é obrigatório fazer o teste do olhinho já no berçário”, observa o médico. Seis meses depois, os pais já podem levar o filho no consultório oftalmológico e iniciar o monitoramento de sua visão, prevenindo possíveis complicações, se uma doença for diagnosticada precocemente.

    Olho que era azul foi escurecendo.

    Vitória Maria de Paula Barbosa, filha do casal de comerciantes Tarcísio Barbosa e Rosana Penha de Paula Barbosa, nasceu seis anos atrás com os olhos azuis. A mãe não sabe quando isso ocorreu exatamente, mas o olho direito da menina ficou verde e na época do diagnóstico do tumor já estava escurecido. Um segundo problema é que o olho não se abria completamente, como o outro. A fotografia para a festa de aniversário em 2012 foi providencial para que a mãe desconfiasse que havia algo errado com o olho da filha.

    Vitória com seus pais Tarcísio / Rosana e irmão Gabriel.
    Vitória com seus pais Tarcísio / Rosana e irmão Gabriel.

    Hoje muitas cidades, inclusive Passos, têm leis que dão direito aos recém nascidos de fazerem o “Teste do Olhinho”, mas quando Vitória veio ao mundo só havia o “Teste do Pezinho”. Para Rosana, se a lei fosse mais antiga, talvez o olho de sua filha pudesse ter sido salvo. “Após a cirurgia, não mudou em nada (o comportamento de Vitória), tanto que me questiono se ela não nasceu com isso”, indaga a mãe.

    Antes de fazer a cirurgia, o especialista Patrick Reis Morais recomendou aos pais que levassem sua filha a um psicólogo, para que esse profissional pudesse preparar a menina para a retirada do olho. “Era 28 de dezembro de 2012, nenhum psicólogo aceitou atendê-la por causa da delicadeza da situação, mas nós conseguimos a Maria de Lourdes (Carvalho Maia), que nos ajudou muito e foi uma peça fundamental. A Vitória criou certa resistência com o médico, aí, com a ajuda da psicóloga, ela foi aceitando, tanto que fez até um desenho dele”, conta a mãe.

    Para a família ver uma criança perder um olho também representou um trauma a ser superado. Rosana Barbosa disse que só aceitou a situação depois que seu marido se informou melhor sobre a doença. “Eu me senti aliviada quando comecei a ver a fundo o que era (o tumor) e meu marido começou a pesquisar”, disse.

    Segundo Rosana Barbosa, todos os profissionais se empenharam e contribuíram para o diagnóstico e tratamento da filha, especialmente os do Hospital Regional do Câncer, onde ela faz o acompanhamento a cada dois meses. “São muito atenciosos, porque, apesar do grande número de pacientes, eles atendem cada um como se fosse o único”, disse.

    A comerciante diz que embora a doença tenha sido grave, a filha perdeu um olho, a força de Vitória ensinou muito a ela como mãe. “Eu sou uma pessoa melhor, existe uma família antes e depois da doença, porque eu aprendi com ela”, afirmou.

    A mãe finaliza dizendo que o comprometimento dos médicos na fase do diagnóstico deve ser exaltado porque o restabelecimento da filha dependeu muito desse empenho dos profissionais. “Fiquei muito feliz com o comum acordo entre os médicos da classe em Passos, pois por todos por que passei havia um respeito de um pelo outro: Dra. Tieme e Dr. Renato Ribeiro do Valle, Dr. Patrick Figueiredo, Dr. Wesley Campos e Dr. Patrick Morais se tratavam com grande respeito e são muito respeitados pelos médicos de grandes centros como Belo Horizonte. Isso é coisa rara atualmente, pois vejo muita falta de ética entre alguns profissionais de nossa cidade. Medicina é algo sério, pois lidamos com seres humanos”, disse Rosana Barbosa.

    Enio Modesto

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