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Janeiro/Março 2020
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Saúde

Como lidar com FILHOS HIPERATIVOS

  • É preciso muito cuidado para tratar crianças e adolescentes com problemas de atenção e hiperatividade, pois diversos fatores devem ser levados em conta no momento do diagnóstico.

    Pais, mães, professores, e todas as pessoas que têm algum tipo de relação com crianças, podem ajudar a identifi car uma doença de causa genética que pode se somar a diversos agentes ambientais e até mesmo psicossociais que se manifesta na infância e pode afetar o portador por toda a vida. Trata-se do Transtorno de Déficit de Atenção-Hiperatividade (TDAH), que é um distúrbio neurobiológico crônico reconhecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

    A médica pediatra Rosângela Leal Cherchiglia trabalha com portadores de TDAH há sete anos em Passos, desde que foi procurada por uma pedagoga e professora que apresentava o problema na família, o que a despertou para essa patologia. De acordo com a médica, a doença tem início na infância, se manifesta em qualquer lugar da convivência da criança e em qualquer companhia, prolongandose por toda a adolescência e idade adulta.

    Vanessa de Almeida Riboli Beirigo, psicopedagoga, se especializando em neuropsicopedagogia clínica.
    Vanessa de Almeida Riboli Beirigo, psicopedagoga, se especializando em neuropsicopedagogia clínica.

    “Nota-se comprometimento das relações pessoais, acadêmicas, sociais e profissionais dos acometidos. Pode-se dizer que há um transtorno no desenvolvimento do autocontrole, consistindo em problemas com os períodos de atenção, com o controle do impulso e com o nível de atividade. Não é uma questão de estar desatento ou hiperativo simplesmente. Não se trata de algo temporário e que será superado como fase normal da infância. Não é falta de disciplina, má educação, descontrole, descuido, permissividade ou desamor dos pais. Também não é ‘maldade’ da criança, pois é um problema, uma disfunção e um obstáculo real que se reflete na vontade da criança ou em sua capacidade de controlar seu próprio comportamento. Tampouco é um defeito de personalidade ou de caráter dos mesmos”, explica a doutora Rosângela Cherchiglia.

    O portador do TDAH apresenta os piores desempenhos em suas funções executivas, funções estas que nos capacitam a ações voluntárias independentes, autônomas, auto-organizadas, direcionadas para metas específicas, segundo a pediatra. Assim, o distúrbio dificulta a criança ou adolescente a tomar iniciativa, planejar, estabelecer prioridades, organizar seus trabalhos, procrastinar, monitorar seu tempo, seus prazos e suas finanças, provocando lentidão e inconsistência no desempenho geral, declínio rápido na motivação, interrupção de tarefas antes de concluí-las, baixa tolerância às frustrações e muitos problemas com a memória. “Também vemos nos adultos problemas quanto à falta de inibição comportamental: falam em momentos inapropriados, interrompem outras pessoas, cometem imprudências e não conseguem interromper uma ação iniciada”, explica a médica.

    Personalidade

    De acordo com a psicopedagoga Vanessa de Almeida Riboli Beirigo, que está se especializando em neuropsicopedagogia clínica, o TDAH é tratado em sua área de atuação “como um distúrbio neurocomportamental, ou seja, que tem implicações orgânicas, com base no sistema nervoso. “O TDAH não afeta os pacientes apenas em seu rendimento escolar, mesmo que estes apresentem um nível satisfatório de inteligência, afeta também a conduta emocional e a adaptação social deles. O relacionamento com os pais, professores e irmãos é, muitas vezes, prejudicado pelo desgaste provocado pelo comportamento inconstante e imprevisível desses pacientes. Assim, o desenvolvimento da personalidade é afetado de forma negativa pela presença do transtorno”, disse.

    O TDAH é reconhecido mundialmente como um transtorno neurobiológico crônico de causas genéticas, que podem se somar a diferentes agentes ambientais, tais como problemas na gestação ou no parto, uso de álcool, cigarro e outras drogas durante a gravidez. Danos cerebrais, como trauma e meningites, também podem interagir com o distúrbio, assim como fatores psicossociais: doenças mentais nos pais, baixo nível social, discórdias, entre outras. “Ocorrem alterações nos neurotransmissores (dopamina, noradrenalina e serotonina) que são substâncias químicas, responsáveis pela transmissão do impulso nervoso, e que efetuarão as variadas e sofisticadas funções em nosso cérebro. Há uma disfunção importante, principalmente no córtex pré-frontal, lobos parietais e cerebelo”, acrescenta a doutora Rosângela.

    Ainda segundo a pediatra, embora haja certa imprecisão diagnóstica, as estatísticas apontam que 5,8% dos brasileiros são portadores desse transtorno, resultado que é muito semelhante aos encontrados em outros países. Ao empregar-se critérios cuidadosos e diagnóstico clínico, vários estudiosos no Brasil chegam às mesmas conclusões, conforme explica Rosângela Cherchiglia: “Em consultório, a título de didática, para cada 20 crianças que entram na escola uma provavelmente é portadora do TDAH. Tenho recebido em meu consultório para diagnóstico e conduta muitas crianças de Passos e de outros municípios vizinhos, como Alpinópolis, Itaú de Minas, Piumhi, Pratápolis, São José da Barra, Carmo do Rio Claro Cássia. Pela Prefeitura de Passos, atendo no Ambulatório São Domingos uma média de 30 casos por semana, isto é, entre casos novos e casos em acompanhamento. São pacientes enviados para diagnóstico ou para manutenção de tratamento vindos de quase todas as escolas estaduais e municipais de Passos, ou encaminhadas por psicólogas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogas, etc, e por procura espontânea dos pais.”

    Subestimação

    Para a psicopedagoga Vanessa Beirigo, é preciso muita cautela em se estabelecer o diagnóstico da doença para evitar uma subestimação, tratando-a mais como distúrbio “produzido socialmente” em vez de um problema de saúde mental, neurobiológico e genético. “Como psicopedagoga clínica, percebo uma preponderância até maior de crianças com esse transtorno quando me deparo com o ‘diagnóstico mais comum’”, ou seja, aquela que parte das escolas ou da opinião dos familiares do paciente. Portanto, para estabelecer uma margem de prevalência segura em contexto clínico para este transtorno, muitos fatores precisariam ser considerados, como a população atendida, os métodos de avaliação utilizados e os critérios diagnósticos empregados”, observa.

    Dra. Rosângela Cherchiglia, médica pediatra: “Quanto mais cedo se direciona o atendimento maior é a certeza de sucesso”.
    Dra. Rosângela Cherchiglia, médica pediatra: “Quanto mais cedo se direciona o atendimento maior é a certeza de sucesso”.

    Vanessa Beirigo ressalta que o TDAH não é uma determinação genética, mas uma predisposição ou influência genética que envolve vários genes. Para ela, o tratamento para os portadores do distúrbio requer um esforço conjunto de várias pessoas, incluindo a própria criança, seus pais e uma equipe multidisciplinar formada por psicólogo, professores, psicopedagogo, fonoaudiólogo e médico. Tudo isso combinado com alguns tipos de intervenção, entre elas: orientações aos pais, orientações de professores, psicoterapia, psicopedagogia e acompanhamento medicamentoso.

    “Os pais precisam estar cientes que as características do TDAH tendem a persistir na adolescência e na vida adulta, gerando interferências em várias áreas do neurodesenvolvimento e que, se não tratadas na infância quando detectadas, irão aumentar o risco de a criança desenvolver problemas socioeconômicos e outros transtornos psiquiátricos”, alerta. “Participar aos pais que o transtorno decorre de disfunções de áreas cerebrais específicas ajuda-os também a amenizar as suas sensações de culpa, tornando-os parceiros na execução de estratégias que possam colaborar para a melhora da vida pessoal, social, familiar e escolar da criança, o que só vem a contribuir para que a mesma supere os obstáculos inerentes ao transtorno e atinja seu potencial máximo”, acrescentou a psicopedagoga.

    De acordo com a doutora Rosângela Cherchiglia, o tratamento do TDAH não é apenas por medicamentos. Como Vanessa Beirigo, a médica afirma que é preciso envolver a família, a escola e outros profissionais de saúde e educação no atendimento ao portador do transtorno. “Quanto mais cedo se direciona o atendimento maior é a certeza de sucesso, ou até mesmo de cura em 40% dos casos”, informa a médica. “Ao acompanhar estas crianças com TDAH não tenho notado parada de crescimento nas mesmas, principalmente quando melhoram com o tratamento conjunto e elas deixam de tomar a medicação por um certo tempo. Às vezes ocorre o amadurecimento e crescimento da criança,ou neste semestre há uma professora mais atuante e com a qual a criança se identifica melhor, ou os pais passam a interagir, a aceitar, a compreender, a firmar parceria com a escola, e neste período tenta-se ficar sem medicações, também”, acrescentou.

    Enio Modesto

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