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Janeiro/Março 2020
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Saúde

Você dorme bem?

  • A vida moderna trouxe uma série de benefícios ao ser humano, mas também muitos problemas, inclusive para a sua saúde. É grande o número de pessoas que acordam cansadas, mesmo após oito horas de sono. Outras pessoas recorrem aos tranquilizantes para conseguir vencer a insônia ou para ´dormir bem`.

    A doutora Lúcia Maria Macedo Ramos acaba de concluir um curso de especialização em tratamento de distúrbios do sono no INSTITUTO DO SONO em São Paulo - uma referência nacional e internacional.
    A doutora Lúcia Maria Macedo Ramos acaba de concluir um curso de especialização em tratamento de distúrbios do sono no INSTITUTO DO SONO em São Paulo - uma referência nacional e internacional.

    Embora seja uma área relativamente nova, os estudos do sono têm conseguido avanços consideráveis. O objetivo dos pesquisadores é levar as pessoas a dormirem adequadamente, melhorando a qualidade do sono e, consequentemente, a qualidade de vida. Nos últimos anos, a medicina do sono descobriu que o corpo precisa do repouso não apenas para descansar, mas para fazer uma manutenção geral de todos os órgãos, para restaurar as energias e para consolidar a memória.

    A pneumologista passense doutora Lúcia Maria Macedo Ramos, que acaba de fazer uma especialização de um ano num instituto que é referência nacional e internacional – o Instituto do Sono, em São Paulo (SP) –, diz que os problemas do sono vêm se intensificando com a vida moderna. “Antigamente, as pessoas não tinham luz o tempo todo, por isso dormiam por mais tempo e bem melhor. Hoje, por causa da modernidade, temos turnos de trabalho à noite; há profissionais que trabalham até tarde no computador, ou lendo até mais tarde, tudo isso influencia”, observa.

    Entretanto, segundo a médica, não é só o estilo de vida que influencia na qualidade do sono. Há alguns distúrbios que contribuem para agravar o quadro, entre eles a insônia, a apneia do sono e a depressão. “O uso de alguns medicamentos e a obesidade ou sobrepeso também são fatores que afetam a qualidade do sono, levando as pessoas a dormirem mal”, observa a doutora Lúcia Macedo Ramos.

    Consequências são graves

    Dormir pouco e dormir mal trazem problemas de imediato na vida das pessoas. Fadiga (cansaço ao levantar-se), irritabilidade, indisposição, dificuldade de concentração, diminuição da libido (e até mesmo impotência) são algumas dessas consequências imediatas para quem dorme pouco ou não tem uma boa qualidade de sono.

    Mas, a longo prazo, as consequências podem ser ainda mais graves. Uma das doenças mais comuns do sono – a chamada síndrome da apneia obstrutiva do sono ou apenas apneia do sono – pode provocar desde arritmias cardíacas, AVC (acidente vascular cerebral), diabetes e hipertensão arterial até morte súbita. “As pesquisas mostram que a má qualidade do sono provoca não apenas alteração no comportamento durante o dia, mas também doenças graves causadas pelos distúrbios do sono”, frisa a médica.

    Distúrbios do sono.

    “Quem tem apneia normalmente tem uma oxigenação ruim, enquanto dorme, o que afeta os batimentos cardíacos. Isso aumenta a pressão arterial, podendo causar AVC. Além disso, a apneia mexe com todos os hormônios, aumenta a chance de diabetes, enfim, pode provocar doenças crônicas”, explica a pneumologista.

    Segundo a doutora Lúcia Ramos, um estudo recente, feito com cerca de 5.600 pessoas, associou distúrbios do sono ao câncer. “Como esta área é relativamente nova, é preciso mais investigações para se ter um estudo conclusivo”, tranquiliza a médica. De qualquer forma, ela ressalta que as associações comprovadas até o momento já são preocupantes.

    Sintomas de um sono ruim

    Mas, como a pessoa poderá descobrir se tem ou não um sono de qualidade? Conforme a especialista, as pessoas podem começar analisando seu próprio comportamento. “Dores de cabeça pela manhã, sonolência excessiva durante o dia, dificuldade de concentração, mudança na libido, irritabilidade, cansaço, são sintomas que indicam que a pessoa não está dormindo corretamente, talvez não seja o tempo suficiente, ou a forma pode estar inadequada”, frisa a médica Lúcia Ramos.

    De vez em quando, a pneumologista tem recebido pacientes que são encaminhados por neurologistas. É que muitas pessoas procuram um neurologista quando começam a apresentar problemas de memória. Ao fazer os testes, o neurologista verifica que tudo está normal, então encaminha o paciente à médica. “É que o sono é o momento em que o corpo consolida a memória do que é vivenciado no cotidiano. Então, quem não dorme bem, não consegue memorizar o que vivenciou”, diz a médica.

    Conforme ela, outro sinal de distúrbio do sono é o ronco. Por isso, o parceiro ou parceira pode ajudar, relatando se a pessoa ronca ou não. Levantar várias vezes para urinar, sintomas de sufocação ou até regurgitação enquanto dorme são outros sintomas de apneia do sono. Os dois últimos já são sintomas mais graves da apneia e merecem atenção redobrada do paciente.

    Outro modo de descobrir é fazer o teste de polissonografia. “Nesse teste – que já fazemos aqui em Passos –, nós avaliamos a noite de sono do paciente, os seus batimentos cardíacos, a oxigenação em cada estágio do sono. Assim, conseguiremos um diagnóstico clínico e laboratorial, que nos indicará qual a situação do paciente. Com base nisso, poderemos indicar o tratamento”, diz Lúcia Ramos.

    O que fazer?

    Mas, como evitar tantos distúrbios? A doutora Lúcia diz que, primeiro, é preciso que o paciente faça “uma boa higiene do sono”. Isso significa que a pessoa deve adotar alguns procedimentos antes de dormir, como: evitar bebida alcoólica; não ingerir comida pesada ao menos duas horas antes de ir para a cama; procurar deitar-se de lado; manter uma rotina do sono (deitar-se e levantar-se nos mesmos horários); se possível tomar banho antes de dormir; apagar a luz, evitar TV e computador, já que a luz em excesso diminui a melatonina – um hormônio que ajuda a pegar no sono - e não privar-se do sono. “O cérebro não sabe o que é luz natural ou artificial, por isso reduz a melatonina, o que influencia na qualidade do sono”, explica a médica.

    Em alguns casos, a doutora Lúcia receita o uso de um aparelho chamado CPAP (sigla em inglês para pressão positiva contínua nas vias aéreas), que previne o fechamento e o estreitamento das vias aéreas durante o sono. Para quem usa tranquilizantes para dormir, a médica diz que tais medicamentos podem, com o passar do tempo, causar insônia. “Esse tipo de medicamento modifica toda a arquitetura do sono, o que não ocorre com os hipnóticos. As bebidas alcoólicas também alteram a arquitetura do sono e dão a falsa impressão de relaxamento; na verdade, elas pioram a qualidade do sono”, observa a doutora.

    Você tem Apneia do sono?

     

    Aos que estão acima do peso, a médica aconselha perder alguns quilos, o que ajuda a ter um sono com mais qualidade. Também os exercícios físicos são recomendados, desde que não ocorram nas duas horas que antecedem o sono. Há casos de apneia do sono que exigem cirurgia. Tal procedimento é mais recomendado para crianças. “Diferente do adulto, que sente muita sonolência durante o dia, a criança fica muito agitada. Algumas vezes, é tratada como se tivesse TDAH (Transtorno do Défi cit de Atenção com Hiperatividade), sendo que, na verdade, tem mesmo é distúrbio do sono”, explica a médica.

    Segundo a doutora Lúcia, a soneca após o almoço faz bem à saúde. “A gente estuda que nos primórdios da humanidade, o homem dormia mais de uma vez por dia. Portanto, se a pessoa puder dormir uns quinze a vinte minutos após o almoço, é bom. Mas, tem que tomar alguns cuidados, usando uma poltrona mais alta ou elevando a cabeceira da cama”, diz a especialista.

    A médica observa que, atualmente, o sono é muito negligenciado por boa parte das pessoas. “A maioria das recomendações que fazemos depende, essencialmente, do paciente, a começar por levar uma vida saudável, fazer atividade física, evitar o estresse, bem como reduzir o número de atividades para não prejudicar o sono”, aconselha Lúcia Maria Macedo Ramos, completando: “Tudo o que se faz em excesso, o corpo cobra.”

    José dos Reis Santos

    Escala de Sonolência de EPWORTH

    Qual possibilidade de você cochilar ou adormecer nas seguintes situações?

    1) Sentado e lendo:

    ( ) nenhuma chance de cochilar
    ( ) pequena chance de cochilar
    ( ) moderada chance de cochilar
    ( ) alta chance de cochilar

    2) Vendo televisão:

    ( ) nenhuma chance de cochilar
    ( ) pequena chance de cochilar
    ( ) moderada chance de cochilar
    ( ) alta chance de cochilar

    3) Sentado em um lugar público sem atividades como sala de espera, cinema, teatro, igreja e etc.:

    ( ) nenhuma chance de cochilar
    ( ) pequena chance de cochilar
    ( ) moderada chance de cochilar
    ( ) alta chance de cochilar

    4) Como passageiro de carro, trem ou metrô, andando por 1 hora sem parar:

    ( ) nenhuma chance de cochilar
    ( ) pequena chance de cochilar
    ( ) moderada chance de cochilar
    ( ) alta chance de cochilar

    5) Deitado para descansar à tarde:

    ( ) nenhuma chance de cochilar
    ( ) pequena chance de cochilar
    ( ) moderada chance de cochilar
    ( ) alta chance de cochilar

    6) Sentado e conversando com alguém:

    ( ) nenhuma chance de cochilar
    ( ) pequena chance de cochilar
    ( ) moderada chance de cochilar
    ( ) alta chance de cochilar

    7) Sentado após uma refeição sem álcool:

    ( ) nenhuma chance de cochilar
    ( ) pequena chance de cochilar
    ( ) moderada chance de cochilar
    ( ) alta chance de cochilar

    8) No carro parado por alguns minutos, durante o trânsito:

    ( ) nenhuma chance de cochilar
    ( ) pequena chance de cochilar
    ( ) moderada chance de cochilar
    ( ) alta chance de cochilar

    0 – Nenhuma chance de cochilar
    1 – Pequena chance de cochilar
    2 – Moderada chance de cochilar
    3 – Alta chance de cochilar

    Dez ou mais pontos, sonolência excessiva, deve ser investigada.

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