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Janeiro/Março 2020
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Saúde

O possível sonho de ter filhos

  • Mesmo dificultados por sequelas de doenças ou fatores comportamentais, casais inférteis conseguem engravidar por métodos modernos da medicina; nem o câncer é mais obstáculo.

    Dos casais em idade fértil, cerca de 15% apresentam algum tipo de dificuldade para engravidar, mas isso não quer dizer que eles não vão poder realizar o sonho de gerar um ou mais filhos. Desde que foi desenvolvida a fertilização in vitro, com o nascimento do primeiro bebê de proveta em 1978, fatores genéticos ou ligados a doenças deixaram de ser empecilhos para a maternidade e paternidade. Nem o câncer do colo do útero ou dos ovários consegue impedir os casais de engravidar. O congelamento de óvulos, semem ou embriões é uma das técnicas da medicina que garantem o sonho do prosseguimento da vida.

    De acordo com o ginecologista Rodrigo Mendes Barreto, especialista em tratamento contra a infertilidade, a reprodução humana assistida veio para facilitar a gravidez para os casais que estão tendo alguma dificuldade para engravidar. São vários tipos de técnica, da baixa à alta complexidade, com utilização da inseminação artificial e até da fertilização in vitro, que era chamada de bebê de proveta.

    “15% dos casais em idade fértil têm alguma dificuldade para engravidar. Os principais fatores são a idade da mulher, a endometriose, as doenças sexualmente transmissíveis, o tabagismo, a obesidade, o diabetes e o hipotireoidismo, além da laqueadura de trompas e a vasectomia”, explica o Dr. Rodrigo Barreto. “E uma causa frequente hoje em dia é o tratamento contra o câncer, seja por quimioterapia, radioterapia ou cirurgia”, observa.

    Do total de pacientes que consultam com o especialista, aproximadamente 20% se queixam de infertilidade. Dos casos examinados e diagnosticados com algum tipo de problema que dificulta a concepção, 40% são de homens. Entre as causas relacionadas ao homem, o médico cita a redução dos espermatozoides por doenças, quimioterapia, impotência sexual, a ejaculação precoce ou retrógrada e distúrbios neurológicos. “Mas grande porcentagem dos casos é resolvida por baixa complexidade”, diz o médico, ou seja; basta coletar o espermatozoide e colocá-lo diretamente no útero da mulher.

    Já os casos mais graves, como o da mulher que está fora da idade fértil ou da que perdeu os órgãos reprodutores devido ao câncer, o procedimento é mais complexo. Dependendo da causa, o tratamento pode ser pela FIV (sigla para a técnica de fertilização invitro) ou pela ICSI (Injeção Intracitoplasmática do Espermatozoide), que são realizadas em clínicas altamente capacitadas. Neste caso, o Dr. Rodrigo Barreto trabalha com duas clínicas, uma em Franca (SP) e outra em São Paulo, capital, onde os óvulos e embriões são mantidos congelados para fertilização futura, no momento que o casal considerar mais apropriado.

    Ginecologista Rodrigo Mendes Barreto: “A reprodução humana assistida veio para facilitar a gravidez para os casais que estão tendo alguma dificuldade para engravidar.”
    Ginecologista Rodrigo Mendes Barreto: “A reprodução humana assistida veio para facilitar a gravidez para os casais que estão tendo alguma dificuldade para engravidar.”

    Barriga de aluguel

    Uma das técnicas que vem sendo utilizada com tranquilidade atualmente é a do “útero de substituição”, chamada no linguajar popular de “barriga de aluguel”, que já enfrentou muita controvérsia e polêmica, mas que hoje é uma prática comum da medicina de reprodução assistida, que ajuda o homem e a mulher a realizarem o sonho de ter filhos.

    O útero de substituição é muito empregado para mulher que perdeu o útero e os ovários, mas que teve o cuidado de preservar os óvulos em uma clínica especializada para posterior fecundação. Essa técnica é utilizada também por casais do mesmo sexo que desejam ter filhos e, hoje, graças à permissão legal, podem gerar o herdeiro.

    Neste último caso, o casal terá que receber o óvulo (casais monoparentais masculinos) ou espermatozoide (monoparentais femininos) de um doador obrigatoriamente desconhecido, o que pode ser obtido num banco de doadores. na primeira situação, os dois podem coletar os espermatozoides e no segundo uma das mulheres pode retirar seus óvulos.

    O problema é que existe pouco desse tipo de estabelecimento especializado em reprodução humana no Brasil, porque a legislação nacional não permite qualquer tipo de benefício para o doador e, portanto, o número é pequeno. Na Europa é o contrário. Na Espanha, por exemplo, a legislação é mais aberta e a doação tornou-se uma fonte de renda, principalmente para universitários, que o fazem para custear seus estudos. “Na Espanha, 5% dos nascimentos são por fertilização invitro. Aqui (no Brasil) é o contrário. Há uma deficiência muito grande”, comenta o médico.

    Poucas clínicas

    Outro fator que dificulta a reprodução humana assistida no país é o custo do procedimento, que fica entre R$ 10 e R$ 15 mil, segundo o Dr. Rodrigo Barreto. Esse valor poderia cair para cerca de R$ 6 mil, se tivéssemos mais clínicas especializadas. O procedimento também pode ser feito de graça, pelo SUS (Sistema Único de Saúde), mas o problema é semelhante: a falta de clínicas. As mais próximas de Passos são as do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (SP) e Belo Horizonte. “A pessoa tem que esperar três, quatro anos, na fila”, disse.

    Segundo orienta o especialista em reprodução humana assistida, seja qual for a situação, o homem e a mulher podem se precaver e se dar uma chance de ter filho. É possível coletar as células reprodutoras mesmo em crianças para que estas, quando adultas, possam decidir pela maternidade ou paternidade.

    A mulher que optar em ser mãe mais tarde, depois de se estabilizar na carreira profissional, por exemplo, pode coletar seus óvulos e preservá-los numa clínica de congelamento e, quando achar que já é hora, fazer a inseminação. A orientação é semelhante para os homens.

    Já aquelas que vão se submeter a um tratamento contra o câncer, o recado também é o mesmo. “É importante que os oncologistas pensem nisso antes de iniciar o tratamento da paciente”, disse o especialista, observando que as mulheres que já perderam o útero e não tiveram seus óvulos retirados a tempo para congelamento a única alternativa é o material de doadores.

    Enio Modesto

    O casal de enfermeiros Eniandra Oliveira Aragão e Alexander Silva Araújo.
    O casal de enfermeiros Eniandra Oliveira Aragão e Alexander Silva Araújo.

    Casal se prepara para ter filho em útero substituto

    O casal de enfermeiros Eniandra Oliveira Aragão e Alexander Silva Araújo – ele, também estudante de medicina – passou por uma experiência traumática que por pouco não pôs fim à possibilidade de gerar um filho. Felizmente, com ajuda de um médico amigo (Allan Leonel) e com as orientações do especialista em reprodução humana assistida Rodrigo Mendes Barreto, Eniandra e Alexander poderão ter o primeiro filho em breve. Uma prima da enfermeira vai gerar o herdeiro (ou herdeiros) do casal em seu próprio útero.

    Eniandra se enquadra num dos principais fatores que levam pacientes a buscar a especialidade médica de reprodução assistida. Ela teve câncer no colo do útero e, para evitar uma complicação da doença, foi orientada a retirar esse órgão e também os ovários. Com ajuda do Dr. Rodrigo Barreto, o casal coletou e conservou em clínica de congelamento as células reprodutivas para gerar, quando quisessem, o primeiro filho.

    Antes dessa decisão, o casal enfrentou o drama da descoberta da doença e a ameaça de nunca mais sonhar em aumentar a família. “Nós ficamos muito assustados, porque estava tudo em dia. Todo ano, ela fazia os exames preventivos”, recorda Alexander, explicando que o diagnóstico do tumor os pegou de surpresa. Ante o quadro, o então médico de Eniandra procurou encaminhá-la para a cirurgia de retirada do útero. Avisado pela esposa e ainda perplexo com a má notícia, Alexander pediu opinião a seu amigo, Dr. Allan, que lhe indicou o Dr. Rodrigo. Após avaliar o caso, o especialista recomendou ao casal a coleta dos óvulos dela e os espermatozóides dele para uma futura concepção em útero de substituição – antigamente chamado, erroneamente, de barriga de aluguel.

    Tudo isso aconteceu em outubro do ano passado e, agora, com 25 óvulos e seis embriões congelados numa clínica especializada em reprodução humana assistida, Enianda e Alexander aguardam o fim dos procedimentos para gerar o filho – ou gêmeos, trigêmeos, como é comum nesses casos – no útero de uma prima, Marcília Oliveira Souza, solteira, de 37 anos de idade.

    Segundo Eniandra, sua prima não tem filhos, mas insistiu em colaborar. “Ela está numa empolgação tremenda! É até bonito de ver”, disse.

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