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Os 50 anos do Lago de Furnas

  • Maio 2013
  • As águas que mudaram a história da região

    Os 50 anos do Lago de Furnas.

     

     

    Principal referência do turismo regional, o lago de Furnas completa 50 anos de funcionamento em 2013. Uma das maiores estatais do ramo de energia elétrica no Brasil, a construção da usina de Furnas transformou a realidade das diversas cidades que hoje são banhadas pelo lago, contribuiu para o desenvolvimento econômico, expansão do turismo regional e foi decisiva para que o fornecimento de energia elétrica no país não fosse ameaçado.

    Em março de 1960, convidados conversam na sala da Casa de Visitantes de Furnas. Apoiado na mesa lateral, o engenheiro John Cotrim, tendo à sua direita Tancredo Neves e JK. (Acervo John Cotrim)
    Em março de 1960, convidados conversam na sala da Casa de Visitantes de Furnas. Apoiado na mesa lateral, o engenheiro John Cotrim, tendo à sua direita Tancredo Neves e JK. (Acervo John Cotrim)

    A comemoração dos 50 anos de formação do lago de Furnas, completados em 2013, representa um momento de comemoração e recordações, para aqueles que de alguma forma vivenciam e acompanham a história do lago, ou que possuem algum tipo de relação com Furnas. Diversas etapas foram percorridas ao longo dos anos, várias transformações ocorreram, desde o início da construção da represa até os dias atuais.

    O engenheiro aposentado Roque Gioacchino Piantino, que trabalhou em Furnas por mais de 25 anos, é um profundo conhecedor de detalhes que envolvem tanto a história do lago de Furnas, desde os primórdios da sua formação, bem como da empresa, onde foi superintendente, maior cargo de carreira, e, cedido à Eletrobrás, foi Assistente do Diretor de Operação e exerceu a função de Secretário Executivo do GCOI – Grupo Coordenador para Operação Interligada – até se aposentar. Roque lembra o quanto foi difícil o fechamento da barragem para a criação do lago, o que ocorreu na madrugada do dia 10 de janeiro de 1963.

    Juscelino Kubitschek nas obras da Barragem de Furnas em 1957, ano de fundação da Central Elétrica de Furnas, onde o presidente acompanhou várias etapas da construção.
    Juscelino Kubitschek nas obras da Barragem de Furnas em 1957, ano de fundação da Central Elétrica de Furnas, onde o presidente acompanhou várias etapas da construção.

     

     “Houve uma forte resistência do então governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, que tentava postergar o fechamento dos túneis de desvio que formariam o lago. Para que tudo ocorresse com êxito, conforme planejava o governo federal na época, foi necessária uma verdadeira operação de guerra, que contou com a participação da marinha, do exército e até da aeronáutica” observa.

    Como o reservatório encheu num tempo bem menor do que o previsto, entre janeiro e setembro de 1963, quando se esperava que essa operação levasse dois anos, Roque Piantino diz que grande parte das famílias foram retiradas praticamente a força de suas propriedades, já que a água havia chegado antes do esperado. Entre os municípios que tiveram suas realidades significativamente alteradas com a formação da represa estão São José da Barra, que foi totalmente tomada pela água e teve que ser reconstruída, já que a água ficou a 14m acima da torre da igreja, além de Guapé e Fama, que foram parcialmente inundadas.

    “A cota de desapropriação foi de 769m; a Cota operacional máxima inicial do lago foi de 766,50m, acima do nível do mar, e a cota máxima atual é 768 m,” observa Roque.

    Apesar das dificuldades, a construção da usina de Furnas prossegue em março de 1961 - Acervo Furnas, J. R. Nonato
    Apesar das dificuldades, a construção da usina de Furnas prossegue em março de 1961 - Acervo Furnas, J. R. Nonato

    Entre as diversas mudanças que ocorreram na região, Roque Piantino revela que a formação do lago de Furnas mudou a geografia, por ter sido necessário mudar o curso do rio Piumhi, que antes era afluente do rio Grande e depois passou a ser do rio São Francisco.O rio Piumhi cujas águas corriam rumo ao sul, até encontrar o oceano Atlântico no rio da Prata, entre o Uruguai e a Argentina, depois, com a construção da barragem de Capitólio, passou a se dirigir para o norte, desaguando no mar entre os estados de Sergipe e Alagoas, no nordeste do Brasil.

    História do lago pode ser dividida em três momentos

    Segundo Roque Piantino, a história do lago de Furnas pode ser dividida em três fases. O primeiro momento, entre os anos de 1958 e 1970, foi marcado por revoltas por parte de lideranças do estado, como políticos, padres, refletindo os anseios da maioria da população, e os fazendeiros que tiveram suas terras desapropriadas.

    Mais de 300 pessoas na festa dos 30 anos de Furnas, comemorados em 1987
    Mais de 300 pessoas na festa dos 30 anos de Furnas, comemorados em 1987

    “Na época o governo de Minas Gerais estava construindo a Usina de Três Marias, no Rio São Francisco, não tendo necessidade premente de energia elétrica, o que levou o então governador Bias Fortes, que antecedeu Magalhães Pinto, a dizer que não fazia sentido construir uma caixa de água em Minas para abastecer São Paulo de energia,” salienta Roque, ao lembrar que foram necessárias intensas negociações entre o governador e o então Presidente Juscelino Kubitschek, que pelo fato de ser mineiro, fez algumas concessões para o estado, entre elas a liberação de um financiamento para o término da construção da usina de Três Marias além, de instalar a sede de Furnas em Passos. O governo federal também teve que dar prioridade à construção de uma linha de transmissão de 345 mil volts de Furnas até Belo Horizonte, a qual ficou ociosa por quase cinco anos.

    Equipe de Furnas recebe, em Brasília, o Prêmio de Qualidade do Governo Federal, em dezembro de 2011 - Acervo Furnas, Márcio Arruda.
    Equipe de Furnas recebe, em Brasília, o Prêmio de Qualidade do Governo Federal, em dezembro de 2011 - Acervo Furnas, Márcio Arruda.

    Na segunda etapa, entre os anos de 1.971 e 1.976, o lago começa a ser utilizado como fonte de lazer e recreação, com investimento de pessoas físicas na construção de ranchos e de casas de campo à beira do lago. “Nessa época o governo de Minas contratou um engenheiro americano para a elaboração de um Plano de Desenvolvimento do Lago de Furnas. Acredito que esse foi um divisor de águas na história do lago,” destaca Roque. Entre os pontos apresentados no estudo feito pelo governo mineiro, havia o estabelecimento de normas para o uso do lago, bem como de um sistema para exame de projetos de empreendimentos privados, para assegurar a obediência das normas adotadas.

    O terceiro momento, segundo Roque Piantino, é a partir de 1.978, quando tem início o investimento de empresas do setor privado na construção de grandes empreendimentos no entorno do lago, como hotéis e condomínios, já como forma de explorar o turismo, uma consequência direta do plano elaborado pelo Governo de Minas em 1.975. “Com a chegada de todo esse progresso, se desfez aquela reação negativa gerada num primeiro momento” garante Roque, ao afirmar que apesar de todas as polêmicas envolvendo a história da usina, “não há dúvidas de que a criação do lago trouxe muitos mais benefícios do que prejuízos para a região”.

    Construção do túnel de desvio da usina de Furnas, em janeiro.
    Construção do túnel de desvio da usina de Furnas, em janeiro.

    A partir desses avanços, o turismo passou a ser observado como uma poderosa fonte de renda que surgia com a expansão do lago, o que contribuiu para o crescimento econômico e populacional da região. Outro ponto destacado por Roque, é que a partir da criação do lago houve a possibilidade de interligação do sistema elétrico do país.

    “Os sistemas de energia eram isolados. A partir da criação do Lago e da conseqüente construção da usina de Furnas, o sistema elétrico do país pode ser interligado, criando a possibilidade de transferir energia de uma região para outra do Brasil, o que antes não acontecia. Essa interligação foi fundamental para que não houvesse racionamento de energia no Brasil” observa. Atualmente Furnas é a 25ª usina hidrelétrica do país e o Rio Grande é o 4º em capacidade de geração de energia elétrica, graças ao lago de Furnas, com sua capacidade de armazenar 23 bilhões de metros cúbicos de água.

    Passos (MG) , nos anos 1990.
    Passos (MG) , nos anos 1990.

    Para o presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Entorno do Lago de Furnas, Fausto Costa, o lago trouxe inúmeras conquistas para a região e o estado de Minas Gerais ao longo de sua existência.

    “O Lago de Furnas por sua dimensão e beleza tornou-se o maior atrativo turístico do Estado de Minas Gerais, fazendo com que a região do seu entorno se desenvolvesse economicamente, seja com a agricultura, com a piscicultura em tanques-rede e, especialmente, com o turismo, que movimenta vários setores da economia, gerando emprego e renda para a população local,” explica.

    “Ao longo dos últimos anos, vários trabalhos foram desenvolvidos, tanto pela Associação dos Municípios do Lago de Furnas, (ALAGO) quanto pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Entorno do Lago de Furnas, (CBH-Furnas) que vão proporcionar uma melhoria qualitativa e quantitativa dos recursos hídricos na região.” ressalta.

    Com 1,2 milhão de quilowatts, Furnas era a maior hidrelétrica.
    Com 1,2 milhão de quilowatts, Furnas era a maior hidrelétrica.

    Para o ex-prefeito de Guapé, Nelson Lara, que também presidiu a Alago e é um dos mais engajados defensores na luta pelo lago de Furnas na região, os benefícios que o lago ainda irá trazer para região são muitos, e já poderão ser percebidos com a realização da Copa do Mundo de 2.014.

    “Os benefícios que o Lago de Furnas está trazendo para o sul e sudoeste de Minas são inúmeros, e a Copa do Mundo do ano que vem será o grande termômetro. Quando fui presidente da Associação dos Municípios do Lago de Furnas (ALAGO) fomos junto com os demais prefeitos de nossa região ao encontro do Secretário de Turismo de Minas Gerais, Agostinho Patrus Filho, e o motivo do encontro foi propor a ele que investisse e incentivasse o turismo no Lago de Furnas durante a Copa do Mundo, para que os turistas que viessem durante a Copa retornassem mais vezes. Para isso, é necessário investirmos em mais capacitação da mão de obra e ainda mais na infraestrutura, para que seja feito com sucesso o eco desenvolvimento do nosso Lago.” avalia Nelson.

    À esquerda, o presidente JK.
    À esquerda, o presidente JK.

    A força da Usina

    A sede de Furnas fica localizada no Rio de Janeiro, e a empresa está presente nos seguintes estados: Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Espírito Santo, Distrito Federal, Tocantins, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rondônia, São Paulo e, mais recentemente no Rio Grande do Norte.

     Furnas possui um complexo de empreendimentos responsável por 10% da geração de energia elétrica do país. São 15 usinas hidrelétricas, duas termelétricas, aproximadamente 20 mil km de linhas de transmissão e 52 subestações. De toda a energia consumida no Brasil, mais de 40% passam pelo Sistema Eletrobrás Furnas. 

    Roque Gioacchino Piantino

    A empresa garante o fornecimento de energia em uma área onde estão situados 63% dos domicílios brasileiros, que responde por 81% do PIB nacional. 

    No momento, a empresa segue seu plano de expansão e constrói quatro novas usinas hidrelétricas - Santo Antonio (RO), Simplício (RJ/MG), Batalha (GO/MG) e Teles Pires (MT/PA) - 28 linhas de transmissão e 15 subestações, com recursos próprios ou em parceria com outras empresas. Todos estes empreendimentos geram milhares de postos de trabalho e levarão energia para mais 13 milhões de brasileiros, ampliando para 41 milhões o número de pessoas que recebem energia gerada ou transmitida com a marca Furnas. A capacidade instalada aumentará em mais de 50%, passando de 11 mil MW para 16,5 mil MW. 

    Comitiva do Banco Mundial em visita ao local do empreendimento.
    Comitiva do Banco Mundial em visita ao local do empreendimento.

    Um pouco mais sobre o lago de Furnas

    Considerado o "Mar de Minas", o lago de Furnas é a maior extensão de água no estado e um dos maiores lagos artificiais do mundo. Alimentado por nascentes e rios de águas cristalinas, cobre uma superfície de 1.406,26 Km², recriando paisagens em 34 municípios fazendo da região um reduto de pescadores, navegadores e pessoas em busca de beleza e repouso. Projetado para mover a Hidroelétrica de Furnas, é fruto da engenharia humana, o que o torna mais sensacional quando se aprecia a harmonia de suas praias e seus canyons magníficos, alguns desaguando lindas cachoeiras às suas margens. 

    Historicamente a região guarda a memória das tribos indígenas que ali habitaram, das trilhas bandeirantes em busca de ouro, das fazendas seculares e dos quilombos rebeldes. Muito dessa história submergiu em fevereiro de 1963, quando as águas do lago subiram seu nível por sobre casas, plantações e até mesmo cidades, transformando definitivamente o lugar. Seus habitantes levaram algum tempo para reconhecer a nova paisagem e as novas possibilidades oferecidas pelo grande lago que se formara. Aos poucos, porém, em seus remansos, agradáveis pousadas, férteis pesqueiros e elegantes embarcações foram surgindo e delineando o futuro turístico do lago de Furnas. 

    Os 34 municípios banhados pelo lago de Furnas oferecem uma natureza espetacular e uma estrutura turística que combina tradições mineiras, esportes náuticos, pesca e trilhas ecológicas. Um roteiro surpreendente para cada visitante que percorre seus caminhos, redescobrindo lugares como Capitólio, onde estão as famosas Escarpas do Lago, maior base náutica de água doce da América Latina, Carmo do Rio Claro onde a tecelagem é internacionalmente conhecida por sua técnica e criatividade apurada, São João Batista do Glória, batizada como a cidade das cachoeiras ou Guapé, conhecida pela beleza da represa, das serras e dos canyons. 

    Renato Rodrigues Delfraro

    Vista dos condutos forçados da usina de Furnas.

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