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À memória de Wander Piroli, um baita cara, quem primeiro sacou que “os rios morrem de sede”.
Como todo mundo sabe, pescador gosta de contar lorota. Tem mania de aumentar o tamanho do peixe:
- Pesquei um mandi tão grande, mas tão grande, que só a fotografi a dele pesava sete quilos!
Pois bem. Seu Pipi, certo dia, arrumou os caniços, as linhas, os anzóis e chamou o filho:
- Pipinho, amanhã vamos pescar!
Pipinho deu pulos de alegria. Era a sua primeira pescaria.
De manhã entraram no jipe e saíram pela estrada afora. Viajaram até um lugar do rio onde, antigamente, Seu Pipi costumava tirar piaus, traíras, papa-terras, mandis e, às vezes, até um dourado arisco.
Jogaram as linhas e ficaram esperando. De repente a linha de Pipinho se mexeu. Rapidamente, conforme o pai havia explicado, ele puxou a vara.
Surpresa e decepção: na ponta do anzol, balançando, apenas o esqueleto de uma sandália velha, encardida e malcheirosa.
Assim passaram o dia todo. Ao final da tarde contaram os “peixes”:
- 3 garrafas plásticas de refrigerante
- 8 latinhas de cerveja
- 3 carcaças de pneu
- 11 saquinhos de supermercado
- 2 latas de sardinha
- 1 calção de banho rasgado, e aquela velha sandália velha...
Voltaram tristes para casa.
- Nem um lambarizinho, meu Deus! O que fi zeram com este rio?
Quanta poluição!!! – o pai falava, desconsolado.
- Da próxima vez a gente vai em outro lugar, né pai?
- Prometo, filho. Nem que eu tenha que revirar a Terra de cabeça pra baixo, ainda vou achar um lugar onde você vai ser “o maior pescador do mundo”!
- O maior pescador do mundo, pai? Não é coisa muito grande pra mim não?
- Tá bem, Pipinho. Então, o maior pescador dessas paragens...
- O que é paragens, pai?
- Os lugares, filhos. Os lugares, a região onde vivemos.
É esse fim de mundo aqui...
- Aqui é o fim do mundo, pai?
Seu Pipi, pra encerrar a saraivada de perguntas que, já sabia, iria longe pela tarde adentro, encerrou:
- Olha, meu filho, depois te explico essas coisas... quando chegarmos em casa, combinado? Por enquanto, só pense nisso: filho de peixe outro peixe... É ou não é?
- Peixe grande ou peixe pequeno, pai?
O pai, já meio confuso, arrumando as tralhas:
- Tá bem, Pipinho. Peixe grande! Repita comigo: filho de peixe grande, peixinho grande é... Ou melhor, peixe de filho grande... Ih, deixa pra lá! Você está me deixando maluco com tanta pergunta!
E deu um beijo nele, afundando o boné do menino na cabeça.
- Acho que você ainda vai ser escritor. Ou, pelo menos, um grande contador de lorotas!
E antes que ele perguntasse o que era lorota, Seu Pipi emendou:
- Conte para os seus amigos, mas só o que você viu, viu?
No dia seguinte, quando os amigos perguntaram da pescaria, Pipinho não deu o braço a torcer: - Peixe eu não peguei não, tá?
Mas fisguei a sandália de um gigante!
- A sandália de um gigante???
– todos indagaram assustados.
- É... E pra tirar ela do rio tivemos que puxar com o jipe.
- Cruz credo! E onde ela está?
- Os pescadores da região pediram ela pra nós...
- Pediram pra quê?
- Para fazer uma jangada.
